Dantes as coisas não eram assim
Nada parecia vir a ser isto
- a porta, a lareira, os frutos, a casa
Agora tudo é diferente
Agora ela arruma as coisas,
todas as coisas visíveis
- as romãs na prateleira,
teias de aranha entre os lençóis,
laranjas e lápis afiados no
parapeito da janela
Agora está tudo nos seus lugares
Agora ela senta-se à espera
10.11.05
13.10.05
leite
depois de anos e anos a confirmar o silêncio
bebendo água à porta do seu oráculo de bronze
anos em que o corpo lhe inchou
desmesuradamente
a mulher, sentada entre as árvores,
um dia
rebentou
e dos rasgões abertos na pele jorrava,
vivíssimo, espumoso, o leite
de boca branca e aberta
derramando o ventre pela encosta
lá onde estavam as pessoas
a torrente fez retesar as narinas
o leite subia, ávido,
colando-se às pernas frouxas dos homens e das mulheres
falava-se baixo, cerrando os dentes
e havia quem subtilmente limpasse
um fio branco do lábio superior
bebendo água à porta do seu oráculo de bronze
anos em que o corpo lhe inchou
desmesuradamente
a mulher, sentada entre as árvores,
um dia
rebentou
e dos rasgões abertos na pele jorrava,
vivíssimo, espumoso, o leite
de boca branca e aberta
derramando o ventre pela encosta
lá onde estavam as pessoas
a torrente fez retesar as narinas
o leite subia, ávido,
colando-se às pernas frouxas dos homens e das mulheres
falava-se baixo, cerrando os dentes
e havia quem subtilmente limpasse
um fio branco do lábio superior
12.10.05
São então estas
São então estas as pessoas que visitam
as casas das outras pessoas.
As pessoas que se sentam
à mesa das outras pessoas.
As pessoas que se deitam
na cama das outras pessoas.
As pessoas que seguem com o riso
o riso das outras pessoas.
São então estas.
As pessoas.
as casas das outras pessoas.
As pessoas que se sentam
à mesa das outras pessoas.
As pessoas que se deitam
na cama das outras pessoas.
As pessoas que seguem com o riso
o riso das outras pessoas.
São então estas.
As pessoas.
27.9.05
A birra
Dez minutos de choro bastariam,
se não me obrigassem a ser crescida.
Viriam ver-me chorar alguns brinquedos que perdi:
a bola que desapareceu pelo muro do quintal num dia frio;
a boneca que ficou debaixo de uma árvore depois de um piquenique;
o triciclo vermelho, esquecido no alvoroço de catar caricas na lama seca.
Todos únicos, todos insubstituíveis, todos grandes perdas,
todos assombrosos berreiros na separação.
E eu, manifestamente inocente, de goela à mostra,
sozinha num planeta inteiro de cúmplices perversos
que não arrancam os cabelos na minha desgraça,
que não se ajoelham em desespero comigo e
que ainda me propõem um sol ao lado do meu,
quase igual, nem vais notar, é tão bonito,
quando é claro que o mundo assim não pode continuar,
eu não posso continuar, nem mesmo com outra bola,
outra boneca ou outro triciclo.
Dez minutos.
se não me obrigassem a ser crescida.
Viriam ver-me chorar alguns brinquedos que perdi:
a bola que desapareceu pelo muro do quintal num dia frio;
a boneca que ficou debaixo de uma árvore depois de um piquenique;
o triciclo vermelho, esquecido no alvoroço de catar caricas na lama seca.
Todos únicos, todos insubstituíveis, todos grandes perdas,
todos assombrosos berreiros na separação.
E eu, manifestamente inocente, de goela à mostra,
sozinha num planeta inteiro de cúmplices perversos
que não arrancam os cabelos na minha desgraça,
que não se ajoelham em desespero comigo e
que ainda me propõem um sol ao lado do meu,
quase igual, nem vais notar, é tão bonito,
quando é claro que o mundo assim não pode continuar,
eu não posso continuar, nem mesmo com outra bola,
outra boneca ou outro triciclo.
Dez minutos.
23.9.05
Mocho
Chegado pois o dia de distribuir
todas as coisas que possuía,
eu sem saber – o dia
apanhada de surpresa com nada
mais que um mocho morto
no chão da sala
ave calada e macia
Tudo o mais desaparecera
excepto aquele mocho de cor parda
como um ninho
esvaziando-se tranquilamente
Bela ave, penso eu olhando-o,
bela ave no chão da minha casa
foste tu que levaste a minha casa?
Quando eles vierem eu não terei
mais nada para lhes dar
e para mim nunca quis nada tanto
quanto este mocho fechado
onde pouso as mãos
como pode ser só isto, penso
mas ainda assim hão-de querer-te também
eu sei
ainda que lhes repugne o silêncio
e a morte
a tua beleza de ave fria e delicada
todas as coisas que possuía,
eu sem saber – o dia
apanhada de surpresa com nada
mais que um mocho morto
no chão da sala
ave calada e macia
Tudo o mais desaparecera
excepto aquele mocho de cor parda
como um ninho
esvaziando-se tranquilamente
Bela ave, penso eu olhando-o,
bela ave no chão da minha casa
foste tu que levaste a minha casa?
Quando eles vierem eu não terei
mais nada para lhes dar
e para mim nunca quis nada tanto
quanto este mocho fechado
onde pouso as mãos
como pode ser só isto, penso
mas ainda assim hão-de querer-te também
eu sei
ainda que lhes repugne o silêncio
e a morte
a tua beleza de ave fria e delicada
16.9.05
Haja tristeza que baste
Haja tristeza que baste
para chegarmos ao Inverno.
Tristeza que baste para que os dedos
da minha mão toquem os dedos
da minha outra mão.
Haja tristeza que baste para a sagrada imitação do riso.
Tristeza que baste para mantermos a temperatura da pele.
Para apagarmos as marcas dos nossos passos.
Haja tristeza que baste para acordar os pássaros
e para espantar os espíritos da casa.
Haja tristeza que baste para que a mesma história
seja contada de forma sempre diferente.
Haja tristeza para lavar os dentes muito brancos,
tristeza para haver vontade,
tristeza para que o pescoço se alongue lentamente
quando subirem as águas do rio.
Haja tristeza que baste para
enchermos a gaveta de coisas inúteis
e para não pensarmos hoje na morte.
para chegarmos ao Inverno.
Tristeza que baste para que os dedos
da minha mão toquem os dedos
da minha outra mão.
Haja tristeza que baste para a sagrada imitação do riso.
Tristeza que baste para mantermos a temperatura da pele.
Para apagarmos as marcas dos nossos passos.
Haja tristeza que baste para acordar os pássaros
e para espantar os espíritos da casa.
Haja tristeza que baste para que a mesma história
seja contada de forma sempre diferente.
Haja tristeza para lavar os dentes muito brancos,
tristeza para haver vontade,
tristeza para que o pescoço se alongue lentamente
quando subirem as águas do rio.
Haja tristeza que baste para
enchermos a gaveta de coisas inúteis
e para não pensarmos hoje na morte.
30.8.05
O que às vezes imagino em frente aos espelhos
Abrir a pele do peito com as mãos:
uma página para cada lado, como nos livros.
No lavatório, o avesso líquido dos gestos.
uma página para cada lado, como nos livros.
No lavatório, o avesso líquido dos gestos.
28.8.05
Dedal
Usa o dedal
para não picares os dedos
- dizia-me a minha avó,
e eu não usava o dedal
nem picava os dedos.
Com a agulha desenhava carreiros
de formigas pela bainha fora,
pregava botões de dois e quatro olhos,
franzidos, fitas e colchetes -
trabalho de rigor e paciência
que me educou na medida dos minutos
para maior glória e beleza
das minhas bonecas.
Com a mesma agulha tentava
mais tarde juntar o que no meu
corpo a cada dia se separava
em metades: os seios, o sexo,
as ancas e também o olhar
tirando as medidas
ao chão e ao tecto da casa.
As mãos, uma de cada lado.
À noite, também sem dedal,
cosia e descosia no
meu peito os mamilos.
Vestia-me e despia-me em silêncio.
para não picares os dedos
- dizia-me a minha avó,
e eu não usava o dedal
nem picava os dedos.
Com a agulha desenhava carreiros
de formigas pela bainha fora,
pregava botões de dois e quatro olhos,
franzidos, fitas e colchetes -
trabalho de rigor e paciência
que me educou na medida dos minutos
para maior glória e beleza
das minhas bonecas.
Com a mesma agulha tentava
mais tarde juntar o que no meu
corpo a cada dia se separava
em metades: os seios, o sexo,
as ancas e também o olhar
tirando as medidas
ao chão e ao tecto da casa.
As mãos, uma de cada lado.
À noite, também sem dedal,
cosia e descosia no
meu peito os mamilos.
Vestia-me e despia-me em silêncio.
22.8.05
Leva-me à tua aldeia
Leva-me à tua aldeia
leva-me de novo à tua aldeia
Pois na minha aldeia eu
semeei a peste
afoguei os cães e os gatos
queimei as árvores e os navios
arranquei as roupas dos velhos
e atirei-os para a beira da estrada
deixei as crianças morrer à fome
e pior que isso
parti-lhes todos os brinquedos
envenenei os caminhos e os pátios
enegreci a água das fontes e amaldiçoei a luz
Por isso
leva-me por favor à tua aldeia
há-de haver a tua aldeia
ou deixa-me ao menos uma pedra fechada na mão
leva-me de novo à tua aldeia
Pois na minha aldeia eu
semeei a peste
afoguei os cães e os gatos
queimei as árvores e os navios
arranquei as roupas dos velhos
e atirei-os para a beira da estrada
deixei as crianças morrer à fome
e pior que isso
parti-lhes todos os brinquedos
envenenei os caminhos e os pátios
enegreci a água das fontes e amaldiçoei a luz
Por isso
leva-me por favor à tua aldeia
há-de haver a tua aldeia
ou deixa-me ao menos uma pedra fechada na mão
Subscrever:
Mensagens (Atom)