13.10.06

intervalo

I

porque é aí que te quero
do outro lado
deste grão de areia


II

ah, mas eu já aprendi
a desaparecer
quando fecham os olhos
para se rirem
escondo-me atrás
dos cortinados
ninguém me vê


III

por aqui
subo
aonde eu estou
por aqui
vem o vento
e lá vou eu
por aqui
abaixo


IV

qualquer canto em vão
de escada me chega
para fazer o ninho
(olha, está ali
um passarinho)


V

o que tens na boca
não é teu


VI

fugiste dos meus sonhos
não queres aparecer
agora não têm graça
nenhuma
sou só eu sentada
à espera


VII

bom era se viesses
à hora em que o meu
pescoço está mais tenro

8.10.06

rapunzel

fui à janela e
soltei as minhas tranças

a noite inteira a soltar
as tranças à janela
enquanto a casa ardia

alguns treparam-me
pelas pernas acima
porém
ninguém quis as minhas tranças
e eu tinha-as lavado
estavam perfumadas
as minhas tranças
que ninguém quis

cheirava a queimado lá dentro
mas à janela estava fresco
constipei-me
sinto febre
nas pernas
não é mais nada
só esta febre nas pernas
a casa queimada
e as tranças
como as hastes de um veado
no Outono