Era o tempo em que havia nas nossas praias poetas em tronco nu,
poetas adormecidos sobre a areia ou rodando os braços vagarosos,
a saltar as ondas como quem abraça o dorso de um cavalo.
Eram poetas de pele salgada, que rolavam a língua contra os dentes
e remoíam inquietos um fino e antiquíssimo grão de areia
- poetas flectidos sobre as pregas da barriga, e poetas vibrantes,
estalando o peito dourado e sonoro como um tambor cheio de sol.
Havia poetas friorentos de pernas brancas,
a ver os dedos enterrar-se em vão, e outros que colhiam
cordões de algas e escondiam o umbigo com fartas cabeleiras.
Nós, as meninas, iamos até à praia para ver os poetas.
As mais atrevidas conseguiam levá-los para as dunas;
despiam-nos, deitavam-nos, e riam-se depois dos arranhões
dos cardos sobre a pele. Algumas lambiam da ponta dos dedos
uma pequena gota do sangue dos poetas - e de que
outra forma podiamos mostrar o nosso amor por eles?
As outras, tímidas, molhavam os pés na maré baixa, espreitavam-nos
pelo canto do olho, apanhavam búzios e olhos de boi;
alguns poetas - via-se - sentiam embaraço, viravam-se,
sacudiam um e outro pé; elas acompanhavam
em segredo: bem me quer, mal me quer, esquerdo, direito,
- que belas eram essas raparigas, todas elas, querendo deixar
a marca dos seus seios nos versos balneares dos poetas.
Dispersos e inéditos poetas, nadando até ao largo,
cada vez mais pequenos, onde nem vozes nem mãos podiam salvá-los
- poetas perdidos que davam à costa longe, muito longe.
20.1.06
6.1.06
Naquele tempo
Falavam do seu desejo
como de um leão terroso e exilado
e da bainha da voz soltava-se
o gume dos dentes cintilantes.
Tinham recordações;
estendiam-nas sobre o ventre
como na superfície de um lago,
e tomavam o sabor das mãos molhadas.
Falavam em torno de uma palavra;
arremetiam contra os espinhos
laboriosos da sua própria paixão.
Calavam-se. Morriam. Recomeçavam.
como de um leão terroso e exilado
e da bainha da voz soltava-se
o gume dos dentes cintilantes.
Tinham recordações;
estendiam-nas sobre o ventre
como na superfície de um lago,
e tomavam o sabor das mãos molhadas.
Falavam em torno de uma palavra;
arremetiam contra os espinhos
laboriosos da sua própria paixão.
Calavam-se. Morriam. Recomeçavam.
5.1.06
Este é o tempo
Este é o tempo das arrumações,
o tempo de sacudir o pó dos muros
e de fazer com eles um lugar onde dormir,
uma mesa onde apoiar os cotovelos.
É o tempo de tirar as flores de plástico
dos vasos que tombaram sobre a terra.
É o tempo de varrer a pedra seca,
este é o tempo de varrer a pedra seca.
É o tempo de deixar partir os mortos queridos
das casas edificadas nas margens das ruas,
e de lhes meter no vazio dos olhos o miolo de pão
com que regressarão aos nossos sonhos.
o tempo de sacudir o pó dos muros
e de fazer com eles um lugar onde dormir,
uma mesa onde apoiar os cotovelos.
É o tempo de tirar as flores de plástico
dos vasos que tombaram sobre a terra.
É o tempo de varrer a pedra seca,
este é o tempo de varrer a pedra seca.
É o tempo de deixar partir os mortos queridos
das casas edificadas nas margens das ruas,
e de lhes meter no vazio dos olhos o miolo de pão
com que regressarão aos nossos sonhos.
20.12.05
Reconstrução
Colar os pedaços sólidos, restantes, da paz
mesmo se poucos
mesmo se Caravaggio enlouqueceu
para iluminar os violinos.
Construir uma figura sem braços
mesmo se cega
mesmo se o único gesto possível
é agora o chão que o pede.
Erguê-la. Equilibrá-la.
Haverá céu sobre a pele
sobre a pedra, e nós existiremos
quietos
no mundo.
Esquecê-la.
mesmo se poucos
mesmo se Caravaggio enlouqueceu
para iluminar os violinos.
Construir uma figura sem braços
mesmo se cega
mesmo se o único gesto possível
é agora o chão que o pede.
Erguê-la. Equilibrá-la.
Haverá céu sobre a pele
sobre a pedra, e nós existiremos
quietos
no mundo.
Esquecê-la.
14.12.05
Poema do avesso da eternidade
Há uma multidão que grita, o ar de pedra sobre os móveis,
a escuridão das janelas fechadas. Ruído, sobretudo: o lugar
onde não reconheces o silêncio ou os sons, entre todos,
que são os teus. Pesa, é de pedra o ar e é preciso repeti-lo:
sedimentada e suspensa, porém, para que possas mexer-te nela
ainda que todos os movimentos sejam demorados e difíceis.
Engoles o que ficou da destruição de mil estátuas, as mesmas
que usaste para aprender a segurar uma colher, a alisar a saia,
a pentear o cabelo. A pedra rasga a garganta ao descer,
o corpo espera o corpo funciona o corpo resolve.
E espera-se encostado à parede e acredita-se
um ar de pedra a arranhar a garganta, não para sempre,
um ar imutável de pedra imutável a descer pela garganta
entre a mesma manhã e a mesma noite
e diz-se da clausura e da quietude involuntárias que são indolência,
evitando-se assim a desdita maior das irmandades lamuriantes,
extremamente irritantes, mesmo para um condenado.
Depois, um dia, é preciso recomeçar a respirar. Diz-se.
Mas antes é preciso que chova, que o frio traga um ar limpo,
coisas que nunca irão acontecer porque és imutável encostado à parede.
Antes é preciso semear à sombra, é preciso que venha o coveiro,
que traga pá, flores, lençóis rasgados nos cantos do muito uso,
lençóis escurecidos com a última transpiração dos defuntos.
E tu não te voltas, a parede é lisa e clara nas tuas costas, e não sabes.
a escuridão das janelas fechadas. Ruído, sobretudo: o lugar
onde não reconheces o silêncio ou os sons, entre todos,
que são os teus. Pesa, é de pedra o ar e é preciso repeti-lo:
sedimentada e suspensa, porém, para que possas mexer-te nela
ainda que todos os movimentos sejam demorados e difíceis.
Engoles o que ficou da destruição de mil estátuas, as mesmas
que usaste para aprender a segurar uma colher, a alisar a saia,
a pentear o cabelo. A pedra rasga a garganta ao descer,
o corpo espera o corpo funciona o corpo resolve.
E espera-se encostado à parede e acredita-se
um ar de pedra a arranhar a garganta, não para sempre,
um ar imutável de pedra imutável a descer pela garganta
entre a mesma manhã e a mesma noite
e diz-se da clausura e da quietude involuntárias que são indolência,
evitando-se assim a desdita maior das irmandades lamuriantes,
extremamente irritantes, mesmo para um condenado.
Depois, um dia, é preciso recomeçar a respirar. Diz-se.
Mas antes é preciso que chova, que o frio traga um ar limpo,
coisas que nunca irão acontecer porque és imutável encostado à parede.
Antes é preciso semear à sombra, é preciso que venha o coveiro,
que traga pá, flores, lençóis rasgados nos cantos do muito uso,
lençóis escurecidos com a última transpiração dos defuntos.
E tu não te voltas, a parede é lisa e clara nas tuas costas, e não sabes.
6.12.05
O fim do mundo
É segunda-feira, são quatro da tarde e
o mundo acabou enquanto eu não estava cá
– sem que entretanto tenha começado
outro
mundo.
Ocorrem-me movimentos, rotinas, gestos,
quotidianos e fáceis – agora podia
fazer café, podia vestir um casaco –
mas para todos eles deixou de haver tempo
– sem que entretanto tenha começado
outro
tempo.
Sei estar de pé quando chego casa, sei fechar a porta,
acender as luzes ainda que sejam excessivas, sei
esperar em frente ao que ficou dos teus olhos:
o mundo seguinte, a tristeza maior, o sol,
horas onde o torpor nada encontre de nós,
uma gaveta larga onde possa caber a morte,
a primeira manhã
– sem que entretanto tenha nascido
outra
manhã.
o mundo acabou enquanto eu não estava cá
– sem que entretanto tenha começado
outro
mundo.
Ocorrem-me movimentos, rotinas, gestos,
quotidianos e fáceis – agora podia
fazer café, podia vestir um casaco –
mas para todos eles deixou de haver tempo
– sem que entretanto tenha começado
outro
tempo.
Sei estar de pé quando chego casa, sei fechar a porta,
acender as luzes ainda que sejam excessivas, sei
esperar em frente ao que ficou dos teus olhos:
o mundo seguinte, a tristeza maior, o sol,
horas onde o torpor nada encontre de nós,
uma gaveta larga onde possa caber a morte,
a primeira manhã
– sem que entretanto tenha nascido
outra
manhã.
10.11.05
Dantes as coisas
Dantes as coisas não eram assim
Nada parecia vir a ser isto
- a porta, a lareira, os frutos, a casa
Agora tudo é diferente
Agora ela arruma as coisas,
todas as coisas visíveis
- as romãs na prateleira,
teias de aranha entre os lençóis,
laranjas e lápis afiados no
parapeito da janela
Agora está tudo nos seus lugares
Agora ela senta-se à espera
Nada parecia vir a ser isto
- a porta, a lareira, os frutos, a casa
Agora tudo é diferente
Agora ela arruma as coisas,
todas as coisas visíveis
- as romãs na prateleira,
teias de aranha entre os lençóis,
laranjas e lápis afiados no
parapeito da janela
Agora está tudo nos seus lugares
Agora ela senta-se à espera
13.10.05
leite
depois de anos e anos a confirmar o silêncio
bebendo água à porta do seu oráculo de bronze
anos em que o corpo lhe inchou
desmesuradamente
a mulher, sentada entre as árvores,
um dia
rebentou
e dos rasgões abertos na pele jorrava,
vivíssimo, espumoso, o leite
de boca branca e aberta
derramando o ventre pela encosta
lá onde estavam as pessoas
a torrente fez retesar as narinas
o leite subia, ávido,
colando-se às pernas frouxas dos homens e das mulheres
falava-se baixo, cerrando os dentes
e havia quem subtilmente limpasse
um fio branco do lábio superior
bebendo água à porta do seu oráculo de bronze
anos em que o corpo lhe inchou
desmesuradamente
a mulher, sentada entre as árvores,
um dia
rebentou
e dos rasgões abertos na pele jorrava,
vivíssimo, espumoso, o leite
de boca branca e aberta
derramando o ventre pela encosta
lá onde estavam as pessoas
a torrente fez retesar as narinas
o leite subia, ávido,
colando-se às pernas frouxas dos homens e das mulheres
falava-se baixo, cerrando os dentes
e havia quem subtilmente limpasse
um fio branco do lábio superior
12.10.05
São então estas
São então estas as pessoas que visitam
as casas das outras pessoas.
As pessoas que se sentam
à mesa das outras pessoas.
As pessoas que se deitam
na cama das outras pessoas.
As pessoas que seguem com o riso
o riso das outras pessoas.
São então estas.
As pessoas.
as casas das outras pessoas.
As pessoas que se sentam
à mesa das outras pessoas.
As pessoas que se deitam
na cama das outras pessoas.
As pessoas que seguem com o riso
o riso das outras pessoas.
São então estas.
As pessoas.
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