pusemos a mesa na mesa
e pusemos a mesa
no chão pusemos a mesa
na areia da praia e
no sofá e pusemos a mesa
na cama e na erva
que cresce no quintal
das traseiras e pusemos
a mesa entre duas pedras
redondas e pusemos a mesa
à sombra de uma
nogueira e pusemos a mesa
onde quer que coubesse
a toalha branca da nossa
primeira manhã
10.5.06
8.5.06
estando eu sentada debaixo duma laranjeira
Estando eu sentada debaixo duma laranjeira
a bordar lençóis, sozinha estava,
e puxei a saia e abri
as pernas para que o sol entrasse
onde nunca tinha entrado
e então nisto veio um passarinho
e pousou-me entre as pernas
ora
isto nunca me tinha acontecido
(era bonito e pequenino, o passarinho,
pardo com um olho amarelo de búzio)
Saltitava de cá para lá como
se estivesse contente por voltar ao ninho
e fazia-me cócegas
Para não o assustar pus de lado o bordado
apoiei as mãos na terra e mordi os lábios com força
ele devia ter fome porque começou a debicar
de mansinho como quem procura
grãos de trigo entre a erva
e fazia-me cada vez mais cócegas
era uma serpentina de cócegas a desenrolar-se
dentro de mim, do meio das pernas até à cabeça
e até aos dedos dos pés
e então
soltei uma enorme gargalhada
e quando olhei de novo ele tinha partido
(teria ido para dentro?, ainda pensei,
mas embora tentasse não conseguia ver)
De casa minha mãe chamou-me;
eu baixei a saia, dobrei o lençol, arrumei
as linhas e as agulhas de bordar e voltei
e nunca lhe contei nada
E ainda hoje isto me dá vontade de rir.
a bordar lençóis, sozinha estava,
e puxei a saia e abri
as pernas para que o sol entrasse
onde nunca tinha entrado
e então nisto veio um passarinho
e pousou-me entre as pernas
ora
isto nunca me tinha acontecido
(era bonito e pequenino, o passarinho,
pardo com um olho amarelo de búzio)
Saltitava de cá para lá como
se estivesse contente por voltar ao ninho
e fazia-me cócegas
Para não o assustar pus de lado o bordado
apoiei as mãos na terra e mordi os lábios com força
ele devia ter fome porque começou a debicar
de mansinho como quem procura
grãos de trigo entre a erva
e fazia-me cada vez mais cócegas
era uma serpentina de cócegas a desenrolar-se
dentro de mim, do meio das pernas até à cabeça
e até aos dedos dos pés
e então
soltei uma enorme gargalhada
e quando olhei de novo ele tinha partido
(teria ido para dentro?, ainda pensei,
mas embora tentasse não conseguia ver)
De casa minha mãe chamou-me;
eu baixei a saia, dobrei o lençol, arrumei
as linhas e as agulhas de bordar e voltei
e nunca lhe contei nada
E ainda hoje isto me dá vontade de rir.
20.4.06
as mulheres despem-se ao sol
as mulheres despem-se ao sol
nas janelas ao sol
nas mesas ao sol
nas eiras e nos estendais
ao sol
as mulheres despem-se
nas janelas ao sol
nas mesas ao sol
nas eiras e nos estendais
ao sol
as mulheres despem-se
3.4.06
tudo
o sol no corpo
talvez se diga
é só isso
talvez se diga
é só isso
29.3.06
Pente
Não faltarei ao encontro em que
mais uma vez irás pentear o meu cabelo
Onde está quem possa dizer
como penteaste o meu cabelo
Estávamos no centro do mundo e
ninguém nos viu
Recordo o som do pente
a desordem amansada nas tuas mãos
O vento levou fios do meu cabelo
que não poderemos reunir
A lua nova não nos iluminou, mas as estrelas
cobriam-me a nuca de tão longe
Eu sabia de todo o teu corpo atrás de mim
como uma mão afagando a corça
mais uma vez irás pentear o meu cabelo
Onde está quem possa dizer
como penteaste o meu cabelo
Estávamos no centro do mundo e
ninguém nos viu
Recordo o som do pente
a desordem amansada nas tuas mãos
O vento levou fios do meu cabelo
que não poderemos reunir
A lua nova não nos iluminou, mas as estrelas
cobriam-me a nuca de tão longe
Eu sabia de todo o teu corpo atrás de mim
como uma mão afagando a corça
7.2.06
Penélope II
amotinaram-se as linhas do tear de Penélope
perdeu-se o linho lavrado da paisagem
nada lhe ordena agora os dedos ou o olhar
o mar engrossa jovens monstros e na terra apodrecem
os frutos que sobraram de todos os verões
só a janela estende uma última coluna
de luz em lenta coreografia pela casa
à noite não terá mais o que fazer
perdeu-se o linho lavrado da paisagem
nada lhe ordena agora os dedos ou o olhar
o mar engrossa jovens monstros e na terra apodrecem
os frutos que sobraram de todos os verões
só a janela estende uma última coluna
de luz em lenta coreografia pela casa
à noite não terá mais o que fazer
20.1.06
Época balnear
Era o tempo em que havia nas nossas praias poetas em tronco nu,
poetas adormecidos sobre a areia ou rodando os braços vagarosos,
a saltar as ondas como quem abraça o dorso de um cavalo.
Eram poetas de pele salgada, que rolavam a língua contra os dentes
e remoíam inquietos um fino e antiquíssimo grão de areia
- poetas flectidos sobre as pregas da barriga, e poetas vibrantes,
estalando o peito dourado e sonoro como um tambor cheio de sol.
Havia poetas friorentos de pernas brancas,
a ver os dedos enterrar-se em vão, e outros que colhiam
cordões de algas e escondiam o umbigo com fartas cabeleiras.
Nós, as meninas, iamos até à praia para ver os poetas.
As mais atrevidas conseguiam levá-los para as dunas;
despiam-nos, deitavam-nos, e riam-se depois dos arranhões
dos cardos sobre a pele. Algumas lambiam da ponta dos dedos
uma pequena gota do sangue dos poetas - e de que
outra forma podiamos mostrar o nosso amor por eles?
As outras, tímidas, molhavam os pés na maré baixa, espreitavam-nos
pelo canto do olho, apanhavam búzios e olhos de boi;
alguns poetas - via-se - sentiam embaraço, viravam-se,
sacudiam um e outro pé; elas acompanhavam
em segredo: bem me quer, mal me quer, esquerdo, direito,
- que belas eram essas raparigas, todas elas, querendo deixar
a marca dos seus seios nos versos balneares dos poetas.
Dispersos e inéditos poetas, nadando até ao largo,
cada vez mais pequenos, onde nem vozes nem mãos podiam salvá-los
- poetas perdidos que davam à costa longe, muito longe.
poetas adormecidos sobre a areia ou rodando os braços vagarosos,
a saltar as ondas como quem abraça o dorso de um cavalo.
Eram poetas de pele salgada, que rolavam a língua contra os dentes
e remoíam inquietos um fino e antiquíssimo grão de areia
- poetas flectidos sobre as pregas da barriga, e poetas vibrantes,
estalando o peito dourado e sonoro como um tambor cheio de sol.
Havia poetas friorentos de pernas brancas,
a ver os dedos enterrar-se em vão, e outros que colhiam
cordões de algas e escondiam o umbigo com fartas cabeleiras.
Nós, as meninas, iamos até à praia para ver os poetas.
As mais atrevidas conseguiam levá-los para as dunas;
despiam-nos, deitavam-nos, e riam-se depois dos arranhões
dos cardos sobre a pele. Algumas lambiam da ponta dos dedos
uma pequena gota do sangue dos poetas - e de que
outra forma podiamos mostrar o nosso amor por eles?
As outras, tímidas, molhavam os pés na maré baixa, espreitavam-nos
pelo canto do olho, apanhavam búzios e olhos de boi;
alguns poetas - via-se - sentiam embaraço, viravam-se,
sacudiam um e outro pé; elas acompanhavam
em segredo: bem me quer, mal me quer, esquerdo, direito,
- que belas eram essas raparigas, todas elas, querendo deixar
a marca dos seus seios nos versos balneares dos poetas.
Dispersos e inéditos poetas, nadando até ao largo,
cada vez mais pequenos, onde nem vozes nem mãos podiam salvá-los
- poetas perdidos que davam à costa longe, muito longe.
6.1.06
Naquele tempo
Falavam do seu desejo
como de um leão terroso e exilado
e da bainha da voz soltava-se
o gume dos dentes cintilantes.
Tinham recordações;
estendiam-nas sobre o ventre
como na superfície de um lago,
e tomavam o sabor das mãos molhadas.
Falavam em torno de uma palavra;
arremetiam contra os espinhos
laboriosos da sua própria paixão.
Calavam-se. Morriam. Recomeçavam.
como de um leão terroso e exilado
e da bainha da voz soltava-se
o gume dos dentes cintilantes.
Tinham recordações;
estendiam-nas sobre o ventre
como na superfície de um lago,
e tomavam o sabor das mãos molhadas.
Falavam em torno de uma palavra;
arremetiam contra os espinhos
laboriosos da sua própria paixão.
Calavam-se. Morriam. Recomeçavam.
5.1.06
Este é o tempo
Este é o tempo das arrumações,
o tempo de sacudir o pó dos muros
e de fazer com eles um lugar onde dormir,
uma mesa onde apoiar os cotovelos.
É o tempo de tirar as flores de plástico
dos vasos que tombaram sobre a terra.
É o tempo de varrer a pedra seca,
este é o tempo de varrer a pedra seca.
É o tempo de deixar partir os mortos queridos
das casas edificadas nas margens das ruas,
e de lhes meter no vazio dos olhos o miolo de pão
com que regressarão aos nossos sonhos.
o tempo de sacudir o pó dos muros
e de fazer com eles um lugar onde dormir,
uma mesa onde apoiar os cotovelos.
É o tempo de tirar as flores de plástico
dos vasos que tombaram sobre a terra.
É o tempo de varrer a pedra seca,
este é o tempo de varrer a pedra seca.
É o tempo de deixar partir os mortos queridos
das casas edificadas nas margens das ruas,
e de lhes meter no vazio dos olhos o miolo de pão
com que regressarão aos nossos sonhos.
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