8.5.06

estando eu sentada debaixo duma laranjeira

Estando eu sentada debaixo duma laranjeira
a bordar lençóis, sozinha estava,
e puxei a saia e abri
as pernas para que o sol entrasse
onde nunca tinha entrado
e então nisto veio um passarinho
e pousou-me entre as pernas
ora
isto nunca me tinha acontecido
(era bonito e pequenino, o passarinho,
pardo com um olho amarelo de búzio)
Saltitava de cá para lá como
se estivesse contente por voltar ao ninho
e fazia-me cócegas

Para não o assustar pus de lado o bordado
apoiei as mãos na terra e mordi os lábios com força
ele devia ter fome porque começou a debicar
de mansinho como quem procura
grãos de trigo entre a erva
e fazia-me cada vez mais cócegas
era uma serpentina de cócegas a desenrolar-se
dentro de mim, do meio das pernas até à cabeça
e até aos dedos dos pés
e então
soltei uma enorme gargalhada
e quando olhei de novo ele tinha partido
(teria ido para dentro?, ainda pensei,
mas embora tentasse não conseguia ver)

De casa minha mãe chamou-me;
eu baixei a saia, dobrei o lençol, arrumei
as linhas e as agulhas de bordar e voltei
e nunca lhe contei nada

E ainda hoje isto me dá vontade de rir.

3 comentários:

João Villalobos disse...

Muito bom! Já desesperava de ler um novo poema, aqui... :)

Luís Filipe Cristóvão disse...

:)

http://prazeresminusculos.blogspot.com/2006/05/laranjas.html

Roque Paulo disse...

Parabéns, Camponesa, deliciosa história!! Sou um viajante da Net e tive a sorte de descobrir seu blog, que é ótimo. Espero que você continue escrevendo, um abraço, Roque Paulo.