24.3.09

As hortas

Entardece nas hortas. O calor não vem de cima, mas da terra
e sobe-me até aos joelhos enquanto caminho pelos regos
de água já secos. Entardece no olho negro da flor das favas,
nas alfaces debicadas pelos pardais. Já entra a sombra nos alvéolos
das folhas verde-azul das couves, altas como rosas.
Não há abelhas a furar a copa negra das laranjeiras,
nem o roçagar de seda das asas dos gafanhotos,
nem a carne dura das suas pernas. Já não. Vai baixando o calor
dos joelhos aos tornozelos, vai pousando o som sobre a terra mais escura.
Para onde foi a água? Tudo se aquieta, tudo entardece com a tarde,
tudo se dissolve no ar como areia mais fina – as alfaces macias, as favas pálidas,
os meus pés quietos sobre a terra. Resistem os figos verdes e duros
cravados na árvore, como testículos de gato, sugando a seiva, o leite,
a lenha. Crescem para dentro, incham em silêncio.

26.2.09

A sombra e o gato

Não no gato, mas na sua sombra
está o perigo.
Na lâmina em crescente
das orelhas.
Na cabeça ampliada sobre
o chão,
território dos dentes
e da garra.
Sombra, selva portátil escondida do sol.
O corpo um escudo
Sombra presa sob as patas,
novelo à espera
do salto.

9.7.08

odorizante

não é por preguiça que
só te encontro à tardinha
é que a essa hora, sobretudo
agora que é verão, a tua pele
(nunca to direi) tem
um cheiro comovente
a dunas

15.6.08

à janela

na minha rua todas as noites
há uma mulher que deixa
um seio
no parapeito da janela

nas casas em frente
mudas
tremem as cortinas

1.4.08

caranguejo

deus deu-me um caranguejo
para eu usar debaixo da pele

um caranguejo
que não pára quieto

quantas patas tenho?
pergunta-me o caranguejo
quando se aborrece
e para que eu não me engane
belisca-me

em vão tento mantê-lo
sossegado
o caranguejo anda
por onde lhe apetece
e faz força
com as pinças
uma de cada vez

toco-me
ali anda ele

desce-me pela barriga
e esconde-se lá embaixo
aqui está quentinho
diz-me
e faz-me cócegas
sabendo bem
que não posso

nunca me apresentas a ninguém
e eu
a disfarçar

daí por vezes
a minha inquietação

a culpa é do caranguejo
que deus me deu

12.1.08

Pasífae

Foi apanhada atrás da escola
num terreno coberto de ervas onde antes,
muito antes, houvera uma quinta.
Era minha amiga.
Nunca me contou nada.
Até ao fim do ano,
os rapazes e as raparigas
iam atrás dela, a chamar-lhe nomes.

Vaca
Puta
Vaca
Vaca
Grande vaca

Era minha amiga
mas eu agora tinha vergonha
e tinha vergonha
de ter vergonha.
Ela - calada.
Olhava para o lado.

Vaca
Puta
Grande vaca
Abres as pernas
a qualquer um,
a qualquer coisa.

Ela
(calada, devagar)
passava.
Eu acreditava que, ao cruzar a esquina,
com certeza ia chorar.

Vaca
Puta
Grande vaca

Um dia, no balneário,
as duas sozinhas, vi-a
despir-se, vi:
as coxas altas de madeira polida,
os seios, ainda pequenos
(maiores que os meus).
Os pelos entre as pernas
negros sobre o bronze da madeira.
Seios e pelos olhando em frente,
como se não se tivesse passado nada.
Sorriu e agradeceu-me
por ainda me sentar na carteira
ao lado dela
e por fazermos juntas
os exercícios de ginástica.

Vaca.
Grande vaca,
que teve
o touro mais bonito da manada.

11.1.08

o pescoço

é preciso avisá-los do perigo de me
tocarem no pescoço
neste instante
o mundo não está preparado
o mundo não está preparado
para certas coisas

14.6.07

Tacto fantasma

Às vezes, na casa reconstruída,
se me concentro numa tarefa ou num livro
e me esqueço onde estou – a luz apaga-se
até meio, mesmo a do sol –, voltam
as paredes antigas, o cheiro das madeiras e
o cheiro do pó, e nas minhas mãos recomeçam
as coisas que já não existem.
Ontem, passei meia-hora a abrir
e a fechar a porta do sótão:
maçaneta pequena,
de porcelana cinzenta,
meio saída do lugar -
nunca tinha reparado que era oval.