16.9.06

em viagem

E quando rodei o corpo em
direcção ao sul eu soube
que a partir desse dia já não
queria ser aquele que chega
e parte, mas sim
o que fica
e vê partidas, chegadas e
mãos que lhe acenam à porta
de passagem.
É esse que sente o sorriso
recolher devagar como um
cão que se deita para
a sesta no silêncio
final da tarde.

8.9.06

De noite

Chega de noite - como o homem que um dia
na infância vi no meu quarto e ainda hoje
não sei quem era.
Lembro-me de um fato escuro
lembro-me de uma sombra uma mancha uma nódoa
ao lado da minha cama
coisa grande que se movia devagar
inclinada sobre a mesa de cabeceira.
Depois virou-se e afastou-se até à porta -
eu fingia dormir, o mundo inteiro
fazia um som de fera negra
a respirar a farejar-me o corpo.
Dele não guardei mais que o vulto
escuro e curvo uma vírgula gigante
no meu quarto o som seco e retido
dos passos no tapete e do roçar da roupa
como uma boca que tenta prender a voz.
Nunca soube quem era
o que fazia ali o homem.
Oh mistérios da infância!
E hoje, mais uma vez, chega de noite.
É outra coisa.

17.8.06

Expiração

Um ano inteiro a tentar
que não chegasse Setembro.

Mas as coisas cansaram-se do Verão.
Expiram. Abrandam. Olham o chão.

E tu que sempre me
lembraste uma flor
recolhes-te em sombra e silêncio.

10.5.06

a mesa

pusemos a mesa na mesa
e pusemos a mesa
no chão pusemos a mesa
na areia da praia e
no sofá e pusemos a mesa
na cama e na erva
que cresce no quintal
das traseiras e pusemos
a mesa entre duas pedras
redondas e pusemos a mesa
à sombra de uma
nogueira e pusemos a mesa
onde quer que coubesse
a toalha branca da nossa
primeira manhã

8.5.06

estando eu sentada debaixo duma laranjeira

Estando eu sentada debaixo duma laranjeira
a bordar lençóis, sozinha estava,
e puxei a saia e abri
as pernas para que o sol entrasse
onde nunca tinha entrado
e então nisto veio um passarinho
e pousou-me entre as pernas
ora
isto nunca me tinha acontecido
(era bonito e pequenino, o passarinho,
pardo com um olho amarelo de búzio)
Saltitava de cá para lá como
se estivesse contente por voltar ao ninho
e fazia-me cócegas

Para não o assustar pus de lado o bordado
apoiei as mãos na terra e mordi os lábios com força
ele devia ter fome porque começou a debicar
de mansinho como quem procura
grãos de trigo entre a erva
e fazia-me cada vez mais cócegas
era uma serpentina de cócegas a desenrolar-se
dentro de mim, do meio das pernas até à cabeça
e até aos dedos dos pés
e então
soltei uma enorme gargalhada
e quando olhei de novo ele tinha partido
(teria ido para dentro?, ainda pensei,
mas embora tentasse não conseguia ver)

De casa minha mãe chamou-me;
eu baixei a saia, dobrei o lençol, arrumei
as linhas e as agulhas de bordar e voltei
e nunca lhe contei nada

E ainda hoje isto me dá vontade de rir.

20.4.06

as mulheres despem-se ao sol

as mulheres despem-se ao sol
nas janelas ao sol
nas mesas ao sol
nas eiras e nos estendais
ao sol
as mulheres despem-se

3.4.06

29.3.06

Pente

Não faltarei ao encontro em que
mais uma vez irás pentear o meu cabelo

Onde está quem possa dizer
como penteaste o meu cabelo

Estávamos no centro do mundo e
ninguém nos viu
Recordo o som do pente
a desordem amansada nas tuas mãos

O vento levou fios do meu cabelo
que não poderemos reunir
A lua nova não nos iluminou, mas as estrelas
cobriam-me a nuca de tão longe
Eu sabia de todo o teu corpo atrás de mim
como uma mão afagando a corça

7.2.06

Penélope II

amotinaram-se as linhas do tear de Penélope
perdeu-se o linho lavrado da paisagem
nada lhe ordena agora os dedos ou o olhar

o mar engrossa jovens monstros e na terra apodrecem
os frutos que sobraram de todos os verões
só a janela estende uma última coluna
de luz em lenta coreografia pela casa

à noite não terá mais o que fazer