8.3.05

teatro II

é de dentro o mundo transfigurado,
e a clausura
um círculo de erva além do medo.

é no avesso que a voz principia.
é do avesso que a voz se alimenta.

teatro

a pele é a única roupa que tenho;
a intenção do movimento e o gesto
que o concretiza, a voz que rasga a luz,
as únicas tendências que reconheço.
e a vanguarda vem escoltada pela memória
no fim do cortejo.

se passos soam no meio do tempo, avanço;
se passos soam a meio do tempo, recuo.

petrifico-me no sol,
no cheiro a pó da tarde,
nas mil liberdades azuis em que o dia agoniza:
todas possíveis,
todas vedadas.

a sombra está cheia de escravos.
a sombra está cheia de escravos.

Nada na mão

Aprendi um novo truque de prestidigitador
que ensaio nos intervalos entre mim e o palco
fazer desaparecer palavras
fazer desaparecer o rio entre um dia e outro dia
sou um homem que engole fogo
sou um homem que devora um lenço leve
de tecido vermelho, até ao último fio
- nada nas mãos,
seca a boca.

20.2.05

Arrumações

Um homem só cabe em qualquer lugar
no espaço entre os dentes e as palavras
no ângulo estreito que escapa ao calor
que derramam os casais de namorados
nos breves instantes em que é reconhecido
para logo esquecerem os seus traços.

Um homem só é prático e portátil
Não ocupa paisagem nem memória
limpa as migalhas, não estorva a passagem
A sua mão disponível torna o lar
mais confortável, e as crisálidas
que respiram nos seus sonhos não despertam,
agitadas, contra a luz da noite alheia

16.2.05

Labareda

Assinalo a antecipação da Primavera
queimando lençóis.
O terreno é vasto, é claro o horizonte,
a chama é branca contra a pele.
Gritam os pássaros e as feras
dos meus lençóis que ardem.
Há uma forma ondulante de mulher
que corre entre as árvores,
o cabelo inflamado de lâminas azuis.
Há línguas de fogo na minha língua
e o olho amarelo de uma ave de rapina
suga o odor e o fumo das suas presas.
O lençol é um caudal de fogo
que lanço pela janela,
uma labareda invisível que de súbito
queima e treme no ar de quase Primavera.

14.2.05

Paisagem

Fazer as coisas pela ordem irreversível do poema
abrir a mão antes que chegue a flacidez da tarde
inspirar no instante em que se pousa o pé no chão
e aninhar nas pálpebras a cor e o sal do dia
recolher a língua um minuto antes da chuva
dar o seio como música à memória, e então
deitar no mesmo leito, em desordem,
as múltiplas deflagrações do corpo
colocar o riso antes do instante, a pedra antes do verso
a faca sobre a mesa antes da boca fechada

7.2.05

hipótese e antecipação

domingo ao sol
o poema diria o som das pedras sob
os passos aleatórios, os altos
e baixos da voz no vento frio.

quando quieto, o corpo morno
diria sobre o cheiro da giesta
que não há nada mais verde
(se os cheiros têm cores)
e que está quase.

4.2.05

*

branco e curvo
o caudal manso da fala
branca, sonora,
uma cascata
dentro da boca
branda a pele
no momento
da queda
branca e leve
a palavra
um lençol
silencioso
sobre o leito