13.3.12

Corvo


O corvo
são três dias e três noites
na forja do melhor ourives
Depois
lançado sobre a terra
é uma máquina de guerra
e há um outro pássaro
invisível
que ri dentro da sua armadura
de lâminas e espelhos.



Melro


O melro não existe é apenas
um buraco negro na paisagem
e tudo o que está a mais
desaparece



1.3.12

passou por aqui há bocado a memória da tua pele

passou por aqui há bocado a memória da tua pele:
enorme – com movimentos de animal antigo
do tempo em que os animais eram todos grandes
e se moviam como a sombra e a luz
quase em silêncio, como a lama e a lava.

não a vi chegar.

apareceu-me primeiro nos dedos, depois
nas palmas abertas das mãos
no olfato, na língua e nos dentes,
na saliva,
por fim, nos pulmões.
quando percebi – porque me ouvi respirar –
já não pude evitá-la.

não que eu faça questão.

esteve aqui a memória da tua pele
e eu esperei que passasse.
já passou.
agora mesmo, acabou de passar:
como as nuvens de água morna passam, sem chover,
pelas tardes de Verão e as escurecem.

agora o ar está pesado.

e eu estou sentada à porta de casa
a ajeitar o cabelo e a alisar a saia
a apanhar partes espalhadas de mim
– aqui um braço, ali alguns dedos –
a tentar encaixá-las umas nas outras e que voltem
a parecer-se comigo
mas as mãos tremem-me e há sons dentro de mim
que não me deixam concentrar.
e fico só a pensar que ainda bem que não é todos os dias
que a memória da tua pele passa assim e se demora
e que preciso decidir se quero ou não reaprender a respirar.

6.1.12

Vísceras, enxúndias, inglúvias

Vísceras, enxúndias, inglúvias
outros nomes para a alma dos animais
quando a tiramos por nossa mão
Não pela boca, não pelas cavidades
naturais do corpo - onde a carne
é mais mole, por aí entra a faca,
entornando vísceras, enxúndias, inglúvias.

I
Primeiro entre todos os animais, o porco
(dizem: o mais semelhante ao homem)
O porco, depois de esvaziado sobre o chão
tem mais partes cá fora que lá dentro -
tripas fumegantes, fígado ao sol,
o alguidar do sangue que é preciso manter
em perpétuo movimento. A colher de pau
e um fio de vinagre substituem o bater do coração.
Primeiro de todos, o porco, e cabe um homem
dentro da sua carcaça, afastando ao entrar
a cortina de enxúndias. Primeiro de todos, o porco:
oito arrobas penduradas na trave mestra
da casa, a pingar sangue e gordura
toda a noite, como um relógio antigo.

II
O segundo animal é a galinha
e morre também pelo pescoço, embora
às vezes, mesmo já morta e por não o saber,
aconteça a galinha correr ainda sobre a terra.
É esse o momento em que corremos
nós também, lembrando-a de que há
uma ordem natural das coisas.
Mas segunda de todos, a galinha,
acaba por fechar as pálpebras vermelhas
e enrugadas no fundo do alguidar.
Lá dentro há coisas que não existem
no homem - inglúvias, ou seja o papo,
e também a moela onde a galinha guardava
anéis, pedrinhas, sementes, as partes duras
da vida fechadas numa bolsa de músculo
nacarado. Além disso, sendo fêmea
e na altura certa, tacteando com a mão
roubamos do fundo da carcaça
um ninho de ovos raiados de sangue.
No fim, cortam-se as esgaravatadeiras
não vá a galinha, outra vez esquecida,
ressuscitar.

III
O coelho, terceiro dos animais
e aquele em que a força da gravidade
é maior e as vísceras mais negras.
Uma vez morto, o coelho fica vazio
e ao despi-lo descobrimos que são
afinal dois animais. Podemos vê-lo
pelo avesso, branco e baço,
amarrotado sobre o chão, ou preferir
o outro - músculos e olhos e dentes
a pingar dentro do alguidar
E está arrumado o animal.

IV
O peixe, quarto na ordem dos animais,
o único cujos órgãos não têm uso
para aquecer as nossas mãos.
Feito o golpe, um único dedo permite
extrair as vísceras, as tripas,
o fio de sangue coalhado,
a flor das guelras. O peixe,
atento, nunca fecha os olhos.

5.12.11

Acção de formação

Se quiseres falar como um adulto verdadeiro
- daqueles que não têm vidas malucas
nem dão desgostos aos pais -,
transforma todos os verbos em dois
e cada dois verbos em quatro
e quatro, se puderes
- a seriedade encontra sempre os recursos
adequados -,
em oito
e assim sucessivamente até sessenta e quatro
- terás da música, ao menos, os múltiplos.

Usa muitos particípios:
Implementado, que é obrigatório;
Disponibilizado, que parece bem;
Inserido, que demonstra trabalho.

Não tentes transmitir informação ou conhecimento relevantes
Que possam ser aproveitados para uma vida melhor
mais simples ou mais à medida das necessidades humanas.

O discurso profissional deve soar assim: profissional.
E fechado. E chato.

Que a curiosidade elementar sobre o mundo
sobre estar aqui
e, da tua voz, a vivacidade
sucumbam esmagadas contra as paredes
como as borboletas nocturnas em pânico dentro dos candeeiros
e os mendigos dentro da fome.

17.10.11

4.9.11

Uma laranja pode atrair-me ao teu quintal



Uma laranja pode
atrair-me ao teu quintal
mas também
o céu reflectido nas janelas,
ou até
o anel que brilha na tua mão
quando fechas a porta.

Uma flor, sim, uma flor
pode atrair-me
ao teu quintal
ou um insecto
- pássaro, flor -
na verdade, um verme
pode atrair-me
ao teu quintal.

Um buraco na terra, ervas daninhas
podem atrair-me
ao teu quintal.

Esse pedaço de pele entre
o teu ombro e o teu pescoço
pode atrair-me
ao teu quintal
de um modo geral, aliás,
o corpo
ou o som de um fruto a cair
pesado demais
no chão do teu quintal

- o balde da água
migalhas de pão
o cair da noite
a luz acesa
o cheiro a comida
podem atrair-me
ao teu quintal.

28.4.11

aqui me tens

A minha aldeia é igual a todas

as aldeias, isto é, nela há

um homem que um dia ao fim

de muitos anos há-de abrir

a porta e despir-se deixando

cair a roupa no cimento

da entrada e depois vai

caminhar até ao muro e chamar

a mulher que mora na casa

ao lado e naquele momento

arranca a erva do canteiro

das alfaces e dizer-lhe:

aqui me tens.