6.1.12

Vísceras, enxúndias, inglúvias

Vísceras, enxúndias, inglúvias
outros nomes para a alma dos animais
quando a tiramos por nossa mão
Não pela boca, não pelas cavidades
naturais do corpo - onde a carne
é mais mole, por aí entra a faca,
entornando vísceras, enxúndias, inglúvias.

I
Primeiro entre todos os animais, o porco
(dizem: o mais semelhante ao homem)
O porco, depois de esvaziado sobre o chão
tem mais partes cá fora que lá dentro -
tripas fumegantes, fígado ao sol,
o alguidar do sangue que é preciso manter
em perpétuo movimento. A colher de pau
e um fio de vinagre substituem o bater do coração.
Primeiro de todos, o porco, e cabe um homem
dentro da sua carcaça, afastando ao entrar
a cortina de enxúndias. Primeiro de todos, o porco:
oito arrobas penduradas na trave mestra
da casa, a pingar sangue e gordura
toda a noite, como um relógio antigo.

II
O segundo animal é a galinha
e morre também pelo pescoço, embora
às vezes, mesmo já morta e por não o saber,
aconteça a galinha correr ainda sobre a terra.
É esse o momento em que corremos
nós também, lembrando-a de que há
uma ordem natural das coisas.
Mas segunda de todos, a galinha,
acaba por fechar as pálpebras vermelhas
e enrugadas no fundo do alguidar.
Lá dentro há coisas que não existem
no homem - inglúvias, ou seja o papo,
e também a moela onde a galinha guardava
anéis, pedrinhas, sementes, as partes duras
da vida fechadas numa bolsa de músculo
nacarado. Além disso, sendo fêmea
e na altura certa, tacteando com a mão
roubamos do fundo da carcaça
um ninho de ovos raiados de sangue.
No fim, cortam-se as esgaravatadeiras
não vá a galinha, outra vez esquecida,
ressuscitar.

III
O coelho, terceiro dos animais
e aquele em que a força da gravidade
é maior e as vísceras mais negras.
Uma vez morto, o coelho fica vazio
e ao despi-lo descobrimos que são
afinal dois animais. Podemos vê-lo
pelo avesso, branco e baço,
amarrotado sobre o chão, ou preferir
o outro - músculos e olhos e dentes
a pingar dentro do alguidar
E está arrumado o animal.

IV
O peixe, quarto na ordem dos animais,
o único cujos órgãos não têm uso
para aquecer as nossas mãos.
Feito o golpe, um único dedo permite
extrair as vísceras, as tripas,
o fio de sangue coalhado,
a flor das guelras. O peixe,
atento, nunca fecha os olhos.

5.12.11

Acção de formação

Se quiseres falar como um adulto verdadeiro
- daqueles que não têm vidas malucas
nem dão desgostos aos pais -,
transforma todos os verbos em dois
e cada dois verbos em quatro
e quatro, se puderes
- a seriedade encontra sempre os recursos
adequados -,
em oito
e assim sucessivamente até sessenta e quatro
- terás da música, ao menos, os múltiplos.

Usa muitos particípios:
Implementado, que é obrigatório;
Disponibilizado, que parece bem;
Inserido, que demonstra trabalho.

Não tentes transmitir informação ou conhecimento relevantes
Que possam ser aproveitados para uma vida melhor
mais simples ou mais à medida das necessidades humanas.

O discurso profissional deve soar assim: profissional.
E fechado. E chato.

Que a curiosidade elementar sobre o mundo
sobre estar aqui
e, da tua voz, a vivacidade
sucumbam esmagadas contra as paredes
como as borboletas nocturnas em pânico dentro dos candeeiros
e os mendigos dentro da fome.

17.10.11

4.9.11

Uma laranja pode atrair-me ao teu quintal



Uma laranja pode
atrair-me ao teu quintal
mas também
o céu reflectido nas janelas,
ou até
o anel que brilha na tua mão
quando fechas a porta.

Uma flor, sim, uma flor
pode atrair-me
ao teu quintal
ou um insecto
- pássaro, flor -
na verdade, um verme
pode atrair-me
ao teu quintal.

Um buraco na terra, ervas daninhas
podem atrair-me
ao teu quintal.

Esse pedaço de pele entre
o teu ombro e o teu pescoço
pode atrair-me
ao teu quintal
de um modo geral, aliás,
o corpo
ou o som de um fruto a cair
pesado demais
no chão do teu quintal

- o balde da água
migalhas de pão
o cair da noite
a luz acesa
o cheiro a comida
podem atrair-me
ao teu quintal.

28.4.11

aqui me tens

A minha aldeia é igual a todas

as aldeias, isto é, nela há

um homem que um dia ao fim

de muitos anos há-de abrir

a porta e despir-se deixando

cair a roupa no cimento

da entrada e depois vai

caminhar até ao muro e chamar

a mulher que mora na casa

ao lado e naquele momento

arranca a erva do canteiro

das alfaces e dizer-lhe:

aqui me tens.

12.1.11

A toalha


A mãe sabe
truques
de magia

a mãe
põe a mesa

assim:

a mãe lança
a toalha
sobre a mesa

e durante um segundo
dois
a toalha fica
suspensa

(ainda)

como uma tenda de circo
e depois
devagarinho
como muito perto
do fim do mundo
a toalha

pousa.

A mãe sabe
tantas coisas
e também
onde não havia nada
agora
o copo, o prato,
a água, o pão.

5.1.11

A padeirinha

A padeirinha caíu
no fundo do alguidar
coitada da padeirinha
caíu de fazer tanta força
todo o dia a amassar.

A padeirinha caíu
na masseira com o pão
coitada da padeirinha
caíu de tanto tender
a massa na palma da mão.

A padeirinha caíu
no forno pelo calor
coitada da padeirinha
caíu de tanto cozer
sumiu-se de tanto suor

Agora não há padeirinha
não há forno nem pão mole
Era baixa e redondinha
cabia num alguidar
embrulhada num lençol.

28.12.10

A floresta

Terás de caminhar durante muitos dias.

No primeiro dia vais passar por uma mulher
muito velha que vai pedir-te pão.
Dá-lhe um pedaço de pão.

No segundo dia vais encontrar um cão
que vai pedir-te carne.
Dá-lhe um pedaço de carne.

No terceiro dia, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite pousado numa pedra.
Bebe o leite antes de entrares na floresta.

E se não beberes o leite nesse dia
nem no dia seguinte
nem todos os dias, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite pousado numa pedra.
Bebe o leite antes de entrares na floresta.

E se não beberes o leite nesse dia
nem no dia seguinte
nem todos os dias, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite (outro copo de leite)
pousado numa pedra (a mesma pedra)
Bebe o leite antes de entrares na floresta.

E se não beberes o leite nesse dia
no dia seguinte chegarás
ao princípio da floresta.