18.7.10

Por outras palavras

Gosto de escutar às portas
quando os outros fazem amor
(ou lá como se diz).
Gosto de pensar que fazem
o que eu também já fiz,
embora
por outras palavras.

14.3.10

Criação

Primeiro, Deus criou
o espinho.
E roçou nele a pele macia
e viu
que era bom.

E depois de picar todos
os dedos, um por um,
e de ver que não havia
mais nada,
Deus criou
o caule
e Deus criou
o verde.

E depois de tingir de verde
o polegar,
Deus criou
a pétala
e juntou a pétala
ao caule
para que o mundo
não acabasse assim,
tão de repente.

E depois lavou
as mãos
e tingiu de rosa
a rosa.

E depois de olhar
o vazio por baixo do caule,
Deus criou as raízes
e à volta das raízes
criou a terra
para as prender.

E depois Deus multiplicou
as pétalas
e chamou-lhe cálice.

Então, Deus olhou
a sua obra

(pausa)

e amassando um punhado
de terra
fez a pedra
e debaixo da pedra
escondeu o insecto
que rasteja
em direcção à rosa.

E Deus,
sentindo que faltava ainda
alguma coisa à sua obra
criou o ar
a água
as estrelas
e o resto do universo.

Ovo

A minha galinha
pôs um ovo.
Eu, fiz um poema.
Hoje é Domingo.
Vesti a bata azul das flores
e fui ter com ela.
O galinheiro cheira a águas velhas,
penas e excrementos.
Eu nunca soube apalpar
as galinhas para ver
se têm ovo.
"Não tomo banho
há sete dias", digo eu.
"Que alívio", diz ela.
Que alívio.
E cacarejamos.

11.1.10

No comboio

Nenhum homem me amou mais
do que o homem que se sentou
ao meu lado no comboio.

Amou-me durante vinte e cinco minutos,
profundamente, sem olhos para mais nada.
Amou o meu perfil,
as minhas mãos a segurar o livro,
amou todas as vezes que olhei pela janela.

Amou-me de um sítio onde
não era capaz de falar-me do seu amor.
E quando se levantou, e me deixou para sempre,
ofereceu-me uma lâmina de madeira, limpa e macia,
dizendo que era para eu marcar
as páginas do livro: toda a riqueza do seu reino.

10.1.10

A morte do primo António

O primo António morreu atropelado
aos 23 anos. Contaram-me em pequena
que ele acabava de voltar para casa,
atravessou a estrada pela frente
do autocarro e o motorista não o viu.
Filho único, a mãe disse-me que ainda
há dias, ao adormecer, lhe sentiu as
mãos macias pousar na cara, e que ele fala
com ela fazendo cair os objectos da cozinha.

Com o primo António aprendi a nunca
atravessar a estrada à frente dum autocarro.

Só muitos anos mais tarde vim a saber
que não foi um autocarro. O primo
António morreu atropelado por um automóvel
quando voltava das aulas, noite escura
(depois de alguns anos meio perdido,
tinha voltado a estudar). O condutor
do carro, que ia bêbado, arrastou
o corpo estrada fora. Disse, mais tarde,
que pensava que era um gato.

Com o primo António aprendi a nunca
atravessar a estrada à frente dum autocarro.

4.6.09

a cobra

Naquele tempo era a cobra.
Fugia à nossa frente por entre
as ervas rasteiras da horta.
Verde. Grossa. Desenroladamente
fugia. Um dia fecharam-me
na casa da lenha. Riam-se. Era
a casa da cobra. Era a casa do
ninho da cobra, diziam, onde
a cobra punha os ovos pela boca,
onde os filhos da cobra ferviam
e brilhavam. Verdes. No escuro,
eu ouvia. Cada cobra ao cair
partia-se em mil pequenas cobras
e cada uma delas em mais mil,
até cobrirem o chão, as paredes
e todos os buracos. Diziam que
as cobras procuravam as mulheres
à noite. As cobras bebiam leite.
As cobras, disseram, iam beber
o meu leite. Bebê-lo e sugar-me
e eu ia ficar cada vez mais pequena.
Desaparecer dentro de mil
cobras faiscantes. Riam-se,
já iam longe. Tudo isto, bem sabia,
era porque eu já tinha maminhas
mesmo sem ter idade para ter
maminhas. E as outras meninas, não.

15.5.09

o domador de esdrúxulas

                      áspera
                      ríspida
                       rígida

                      chicote
                      chicote
                      chicote
                      chicote
                      chicote

                      plácida
                     lânguida
                       lívida

30.4.09

Imaginário Involuntário

É de tanto espaço que não sei o que fazer.

Não pedi mas puseram-me aqui.

Deixaram-me aqui e eu podia
voar para todos os lados do granulado da terra,
fértil e húmido nas mãos.

Podia voar para dentro do poço até ao eco
até ao frio e ao escuro
até ao miado aflito do gato preso na irregularidade da pedra.

Podia abrir os olhos até ao branco da água
e respirar até ao fim da tarde –
até ao cheiro enjoativo da erva doce,
até à hora em que as cigarras se calam e os grilos retomam o silêncio.

Em vez disso, estou quieta.