8.2.07

uma dor assim

É uma dor assim
um tanto difícil
escorregadia
contorcionista
alegre
uma dor, devo dizê-lo,
um pouco infantil,
não pára quieta
não me dá descanso
irritante
uma dor que se me agarra ao pescoço
que me acorda a meio da noite
risca os meus livros
entorna-me o copo
sai todos os dias
com as minhas roupas
e apaga-me
a luz

17.1.07

as vozes

Deus fala muito comigo
mas em línguas que não entendo
Fala-me baixinho
e às vezes, à noite,
digo-lhe "Deus, por favor, deixa-me dormir"
Ele cala-se por um instante
e depois recomeça
E eu digo-lhe "Deus, por favor, deixa-me;
que vens tu aqui fazer, falar comigo assim,
em línguas que não entendo -
acaso achas que preciso
de ouvir vozes;
de que me recordes todos os dias
como estou sozinha?"
E Deus fala mais e mais
quer-me às vezes parecer -
como se não acreditasse em mim.

19.12.06

as rosas

Procurar as rosas e cobrir a soleira de rosas. Se necessário, cortar as rosas. Renunciar por vezes às rosas. Cultivar e repreender as rosas. Comer algumas rosas. Não olhar a direito as rosas. Se chegar Janeiro, podar as rosas. Cobrir com pudor as raízes das rosas. Estender o braço entre os caules sem tocar as rosas. Deixar morrer devagar as rosas. Ver apodrecer as rosas. Querer as rosas, e querer ainda mais e de novo as rosas e querer muito falar das rosas. Ao passear com um amigo num dia de Inverno, sem dar por isso recordar com ele as rosas. Abrir uma excepção para as rosas.

18.12.06

leite

Tenho leite no peito e
leite na boca e
nos olhos.
O mundo passa por trás de uma
película translúcida de
leite derramado.
Leite gordo.
Leite bom.
Onde tocam os meus dedos
aí fica leite
e quando me rio
espalha-se o leite
como uma nascente apertada
do espaço por entre os dentes
e tudo me sabe a leite
ao meu leite nas gengivas brancas.
Ouço-o:
leite no estômago e nas veias
leite quente entre as pernas
espuma de leite a sair da pele
e o cheiro o cheiro o cheiro
o cheiro este cheiro a leite.

15.11.06

ao lado

Eu queria muito meter conversa
com o rapaz sentado na mesa
ao lado, porém
a única coisa que tenho
para lhe contar é que
hoje de manhã cosi
a bainha da minha saia.

Ele não deve saber como
a minha mão é exacta
no momento de coser
a bainha da saia
da sua flexibilidade de
aranha paciente e táctil
cada dedo um arco
de violino.
(escuto)

Não tenho nenhuma outra
coisa que valha a pena contar
mas falar disso ao rapaz
- não sei.

Meu

Este braço não é meu.
Este riso, este ombro,
este leito,
este passo não é meu.
Nem o ar quando respiro.
Não é meu o rio nem
meu é o testemunho
nem o cordel
em torno do pulso
que não é meu.
Falo dum sonho que não é meu.
De uma forma precisa de cortar o pão.
Nada disso é meu.

13.10.06

intervalo

I

porque é aí que te quero
do outro lado
deste grão de areia


II

ah, mas eu já aprendi
a desaparecer
quando fecham os olhos
para se rirem
escondo-me atrás
dos cortinados
ninguém me vê


III

por aqui
subo
aonde eu estou
por aqui
vem o vento
e lá vou eu
por aqui
abaixo


IV

qualquer canto em vão
de escada me chega
para fazer o ninho
(olha, está ali
um passarinho)


V

o que tens na boca
não é teu


VI

fugiste dos meus sonhos
não queres aparecer
agora não têm graça
nenhuma
sou só eu sentada
à espera


VII

bom era se viesses
à hora em que o meu
pescoço está mais tenro

8.10.06

rapunzel

fui à janela e
soltei as minhas tranças

a noite inteira a soltar
as tranças à janela
enquanto a casa ardia

alguns treparam-me
pelas pernas acima
porém
ninguém quis as minhas tranças
e eu tinha-as lavado
estavam perfumadas
as minhas tranças
que ninguém quis

cheirava a queimado lá dentro
mas à janela estava fresco
constipei-me
sinto febre
nas pernas
não é mais nada
só esta febre nas pernas
a casa queimada
e as tranças
como as hastes de um veado
no Outono