1.5.05

Maio

Cumpre inaugurar o mês de Maio:
31 dias sem férias à sombra do sol.
Paredes, papéis, agrafadores, tesouras,
clips, despachos, vénias, vénias, vénias, a
espinha dorsal a desfazer-se nas descidas,
a vontade a desfazer-se nas subidas e o
lodo por baixo de todas as pedras
onde a cidade seria nossa.

Ou a terra.

Inaugurar Maio: celebrar a existência dos pioneses
entre o material de escritório mais insuspeito,
urdir um terrorismo dos pioneses, a vitória dos pioneses,
o regresso dos pioneses às cadeiras onde pertencem.

29.4.05

Diagonal sem tecto.

A rua, os carros, a praça e os prédios em volta.
A noite, a paragem do autocarro, a espera e
os papéis do dia no bolso das calças.
O relógio, o sono, a impaciência.
O cheiro baço do trânsito que escoa:
um cinzeiro, tabaco velho, estores fechados.

E não há tecto, não há telhado, não há lustres,
não há dia de limpeza, telefones, aspiradores;
não há gravatas, sandálias novas, penteados platinados,
saltos, madeixas naturais, revistas, receitas ou lições.

O tempo grande é escuro e certo e começa na base dos candeeiros.
A manhã, contínua, tarda e permanece.

A única coisa errada é fazerem-se os passos sempre na horizontal.

As palavras-cruzadas, que não têm esqueleto,
não lêem livros e que frequentam
- sem distinção de ascendência, sexo, raça,
língua, território de origem, religião,
convicções políticas ou ideológicas, instrução,
situação económica, condição social, orientação sexual -
as salas de espera de todos os consultórios,
possuem maior agilidade.

1.4.05

Corpo maior

A praça abafada ao cair da noite
suor no pescoço, sandálias em Abril
pergunto se é doentio o calor, se o fogo
corre sozinho nos sulcos das fontes
imediatamente por baixo das raízes das árvores.
Interrompo o jardim com gestos de Verão
para molhar as mãos no repuxo.
Antes do rosto, detenho o hábito: demoro
antigos e alheios
os dedos na água imprecisa.

24.3.05

Riem-se e riem-se

Riem-se muito
as raparigas
de azul bordadas
riem-se e correm
e rasgam os ares
com risos azuis
e dentes de prata

Riem-se agora
as raparigas
de saias vermelhas
riem-se e rodam
as saias às flores
as saias e as cores
à volta das mesas

Riem-se ainda
as raparigas
de blusas brancas
riem-se e rompem
as blusas de mangas
largas abertas
e enroscam as tranças

Riem-se todas
à volta das eiras
em gargalhadas
abertas rasgadas
como clareiras
escancaradas
com braços e bocas
e pernas em barda

(E os rapazes
acham-nas parvas)

21.3.05

Daqui vê-se o mar

Passo a tarde a discutir com um amigo se daqui se vê o mar.
Eu digo que sim. Ele diz que não.
Diz-me que confundo algumas nuvens baixas com o mar.
Mas é o mar, digo eu.
Diz-me, ainda, que confundo a linha horizontal
dos telhados, ao fundo, com o mar.
Mas é o mar, digo eu.
O meu amigo irrita-se comigo,
diz que se vai embora
e começa a deslizar pelo chão.
Cada vez se alonga mais,
frio e húmido e azul como um peixe;
deixa no chão um rasto de espuma
e desaparece pelo mar adentro.

10.3.05

anti-flash

na retina não ficou nada
excepto a lonjura de andrómeda
que no espaço se torna noite lisa

nos meus olhos nenhum sangue pode ser medido

9.3.05

fim

cessaram os vislumbres ao adormecer.
agora, dentro do corpo é o
ruído. fora do corpo está
o ruído.

na sombra, vinte mil escravos
preenchem com capitulares as paredes da cidade.
desenham, experimentam capitulares.
com zelo genuíno.

8.3.05

a estátua

onde o corpo se parte
ao mover-se

pode ser no meio do jardim
dentro de água
pode haver no ar e na respiração
a evidência da árvore nova
antes dos olhos

onde o corpo
renuncia

teatro III

a sombra está cheia de escravos.
a sombra está cheia de escravos.
a sombra está cheia de escravos.

(porque estarias tu entre os escravos?)