26.6.13
Os ciclistas
Anda comigo, irmã,
pôr-te à janela
a ver os homens passar.
Lado a lado,
debrucemo-nos
sobre a rua
amparando o decote
como um braçado de rosas.
Hoje é Domingo
dia de ver passar
os ciclistas
com os seus rabos apertados
e que eles,
inclinados sobre a curva,
sejam para nós
como um bando de corças
na súbita clareira da floresta.
Então nós, as meninas,
bateremos palmas
estremecendo o peito.
A mais tímida
há-de cravar as mãos
na sua própria carne,
enquanto a outra
irá pender pela cintura
estender os braços
e apalpá-los.
Colo
Sou mulher
ou seja
tenho sempre
qualquer coisa
ao colo
qualquer coisa
prestes a cair
se por um instante
distrair as mãos
e quando não tenho nada
então
as próprias mãos
melhor pousá-las
sobre os joelhos:
assim
bem à vista
e se nem as mãos
então
o difícil equilíbrio do mundo
sobre a curva do joelho
qualquer desatenção
(um suspiro)
pode ser fatal
6.3.13
Maria Alice
Para que queres tu tantos cabelos, Maria Alice?
Tantos cabelos e tantas pernas, Maria Alice,
diz-me, para que queres tu tantas pernas?
E braços - meu Deus, o que há em ti de braços!
Maria Alice, diz-me, quanto tens de costelas?
E quanto de pescoço, Maria Alice?
Quanto de subir e descer entre o ombro
e o lóbulo da orelha? E dedos, Maria Alice,
para que são tantos dedos? E nos dedos
tantos ossos, tantas unhas, tantas direcções?
Devo falar do teu colo, Maria Alice? Dos teus seios?
Dos teus muito, muitos seios, semeados de sinais?
Ou desses caminhos de montanha que são
as tuas coxas, as tuas íngremes nádegas
- quantas nádegas, Maria Alice!
E - que vejo eu, Maria Alice? Para quê tantos umbigos?
Teu ventre, Maria Alice, cravado de botõezinhos...
Ah!
19.2.13
às pessoas que
Às pessoas que dizem que o sofrimento é uma força criativa:
O sofrimento é uma grandessíssima merda. É isso que é o sofrimento.
Quando estou triste não quero
escrever versos, não quero sequer que antes aconteçam, não quero que cheguem
vindos da rua ou da sujidade das minhas unhas ou do raio que os parta.
Construir e desconstruir a alegria. Só. Desfazê-la ou pintá-la com
aquela cor parda que é o resultado da mistura de todas as aguarelas. Mas que seja
alegria.
Porque o sofrimento é uma merda.
E um verso ressabiado é uma coisa muito feia e despudorada.
22.1.13
Para escolher uma maçã
Esta maçã está verde
Esta maçã está suja
Esta maçã está podre
Este maçã brilha demais
Esta maçã não tem pé
Esta maçã vem de Espanha
Esta maçã tem um buraco
Esta maçã foi picada
Esta maçã tem bexigas
Esta maçã é pequena
Esta maçã não tem cor
Esta maçã não tem cheiro
Esta maçã está tocada
Esta maçã caíu ao chão
Esta maçã é torta
Esta maçã não se equilibra
Esta maçã tem bicho
Esta maçã é tua
6.1.13
Enxoval
Minha mãe, borda-me
o peito com a agulha
mais fina, com fio de seda,
borda-me o peito com flores
e por entre as flores, pássaros
de bico amarelo, pássaros
que comam os bichos
e me tenham sempre bem asseada.
Manda-me estar quieta,
diz-me que não dói
e remata o último
ponto na dobra dos seios
para que o meu marido
mais tarde possa gabar
tanto o direito
como o avesso do teu trabalho.
Cose-me depois a renda
à volta da cintura, como
a dobra do lençol (a renda
antiga que tiraste das cinturas
das avós), cose-a
com ponto miudinho
onde a carne for mais mole,
e deixa que caia até quase
esconder os pelos que começam
um palmo mais abaixo,
medido pela mão de um homem,
quase, para que eu nunca possa
quase, para que eu nunca possa
sentar-me sem fechar
as pernas.
E para a boca, minha mãe,
faz-me longas as cortinas,
com reposteiros para abafar
o ruído, e nos dentes
pendura-me pérolas,
missangas, pedacinhos
de vidro colorido,
- para que não seja
por falta de sorriso
que eu fique por casar.
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