Terás de caminhar durante muitos dias.
No primeiro dia vais passar por uma mulher
muito velha que vai pedir-te pão.
Dá-lhe um pedaço de pão.
No segundo dia vais encontrar um cão
que vai pedir-te carne.
Dá-lhe um pedaço de carne.
No terceiro dia, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite pousado numa pedra.
Bebe o leite antes de entrares na floresta.
E se não beberes o leite nesse dia
nem no dia seguinte
nem todos os dias, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite pousado numa pedra.
Bebe o leite antes de entrares na floresta.
E se não beberes o leite nesse dia
nem no dia seguinte
nem todos os dias, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite (outro copo de leite)
pousado numa pedra (a mesma pedra)
Bebe o leite antes de entrares na floresta.
E se não beberes o leite nesse dia
no dia seguinte chegarás
ao princípio da floresta.
28.12.10
22.11.10
o poema lê-se
O poema lê-se
de outra maneira
o poema
fechado na caixa
no meio da sala
é preciso tirá-lo
do caminho
o poema
embora por vezes
se ouçam vozes
assombração
o poema
passando-lhe a mão
no lombo afiado
ele dobra
e ao abrir a caixa
o ar que está fora
não se mistura
com o ar que está dentro
calado
à espera
de saltar-nos
ao pescoço
de outra maneira
o poema
fechado na caixa
no meio da sala
é preciso tirá-lo
do caminho
o poema
embora por vezes
se ouçam vozes
assombração
o poema
passando-lhe a mão
no lombo afiado
ele dobra
e ao abrir a caixa
o ar que está fora
não se mistura
com o ar que está dentro
calado
à espera
de saltar-nos
ao pescoço
ela disse rosas vermelhas (a partir de oscar wilde)
se eu lhe trouxesse rosas vermelhas
rosas vermelhas
ela disse
se em todo o meu jardim
ela disse
rosas vermelhas
rosas vermelhas
ela disse
que dançaria comigo
em todo o meu jardim
rosas vermelhas
ela disse
que dançaria comigo
em todo o meu jardim
rosas vermelhas
ela disse
ela dançaria comigo
rosas vermelhas
no meu jardim
ela disse
ela dançaria comigo
rosas vermelhas
no meu jardim
rosas vermelhas
ela disse
ela disse
se eu lhe trouxesse
rosas
rosas
rosas
rosas vermelhas
vermelhas
ela disse
rosas
vermelhas
ela disse
mas em todo o meu jardim
ela dançaria comigo
ela dançaria comigo
se ela disse
em todo o meu jardim
rosas vermelhas
rosas vermelhas
ela disse
ela disse que
dançaria com
rosas vermelhas
rosas vermelhas
mas se eu lhe trouxesse
rosas vermelhas
rosas vermelhas
mas se eu lhe trouxesse
rosas vermelhas
ela
4.11.10
Lisboa no Inverno
Lisboa no Inverno começa em Agosto
Quando os olhos nos doem
Na página do livro que se fez cinzenta
Sem que déssemos por isso
Lisboa no Inverno começa atrás dos prédios
Quando o sol desaparece mais cedo
E desaparece e desaparece e desaparece
Até ao fim da rua
E fica uma sombra morna por baixo das árvores
Uma sombra larga e luminosa
Tão grande como o sol que se pôs.
Esticamo-nos e reviramo-nos no sofá
Ou debruçamo-nos sobre a mesa
Para evitar um acção mais brusca que interrompa a leitura
Como levantarmo-nos para ligar os candeeiros e acender a casa
Só mais um bocadinho, só mais um bocadinho
Como no sono bom, no duche quente
Que eu agora não quero acordar
Não quero este folclore das estações às cotoveladas no mundo
Agora eu, agora eu
A tirar-me deste torpor
Se ainda agora havia dia
Quase até à meia-noite
Um dia de braços abertos
Como um peixe gigante
Acesa, a casa é uma janela amarela quase invisível
Na noite de Agosto em que o Inverno chega à cidade
E se deixa ficar quieto para ninguém perceber
E o sol que se pôs atrás dos prédios se demora ainda
Aberto
Sobre o rio
Quando os olhos nos doem
Na página do livro que se fez cinzenta
Sem que déssemos por isso
Lisboa no Inverno começa atrás dos prédios
Quando o sol desaparece mais cedo
E desaparece e desaparece e desaparece
Até ao fim da rua
E fica uma sombra morna por baixo das árvores
Uma sombra larga e luminosa
Tão grande como o sol que se pôs.
Esticamo-nos e reviramo-nos no sofá
Ou debruçamo-nos sobre a mesa
Para evitar um acção mais brusca que interrompa a leitura
Como levantarmo-nos para ligar os candeeiros e acender a casa
Só mais um bocadinho, só mais um bocadinho
Como no sono bom, no duche quente
Que eu agora não quero acordar
Não quero este folclore das estações às cotoveladas no mundo
Agora eu, agora eu
A tirar-me deste torpor
Se ainda agora havia dia
Quase até à meia-noite
Um dia de braços abertos
Como um peixe gigante
Acesa, a casa é uma janela amarela quase invisível
Na noite de Agosto em que o Inverno chega à cidade
E se deixa ficar quieto para ninguém perceber
E o sol que se pôs atrás dos prédios se demora ainda
Aberto
Sobre o rio
21.9.10
o espelho (a partir de eulalia valldosera)
uma mulher só consegue ver o próprio sexo
com a ajuda de um espelho
uma mulher tem de acreditar no espelho
e tocar a ferida, como S. Tomé
uma mulher ouve muitas histórias
contadas ao ouvido e no fim
acaba sempre por perguntar ao espelho
se é verdade o que não vê
e o espelho abre a boca e diz:
com a ajuda de um espelho
uma mulher tem de acreditar no espelho
e tocar a ferida, como S. Tomé
uma mulher ouve muitas histórias
contadas ao ouvido e no fim
acaba sempre por perguntar ao espelho
se é verdade o que não vê
e o espelho abre a boca e diz:
8.9.10
As palmeiras
Estávamos no chão do quarto
da minha avó
à minha frente
os pés brancos da cama de ferro
atrás de mim
os teus braços as tuas pernas
E dizias-me que olhasse
para cima, porque
no céu azul de muitos anos
passavam a voar
as copas das palmeiras
passavam a voar
como grandes pássaros redondos
passavam a voar
com dezenas de asas retraçadas pela luz
passavam a voar
por cima do quarto da minha avó
e tu falavas-me
da cegueira das rotas migratórias
Passavam a voar
e no sonho inquietava-me apenas
não ver no chão a sua sombra
da minha avó
à minha frente
os pés brancos da cama de ferro
atrás de mim
os teus braços as tuas pernas
E dizias-me que olhasse
para cima, porque
no céu azul de muitos anos
passavam a voar
as copas das palmeiras
passavam a voar
como grandes pássaros redondos
passavam a voar
com dezenas de asas retraçadas pela luz
passavam a voar
por cima do quarto da minha avó
e tu falavas-me
da cegueira das rotas migratórias
Passavam a voar
e no sonho inquietava-me apenas
não ver no chão a sua sombra
18.7.10
Por outras palavras
Gosto de escutar às portas
quando os outros fazem amor
(ou lá como se diz).
Gosto de pensar que fazem
o que eu também já fiz,
embora
por outras palavras.
quando os outros fazem amor
(ou lá como se diz).
Gosto de pensar que fazem
o que eu também já fiz,
embora
por outras palavras.
14.3.10
Criação
Primeiro, Deus criou
o espinho.
E roçou nele a pele macia
e viu
que era bom.
E depois de picar todos
os dedos, um por um,
e de ver que não havia
mais nada,
Deus criou
o caule
e Deus criou
o verde.
E depois de tingir de verde
o polegar,
Deus criou
a pétala
e juntou a pétala
ao caule
para que o mundo
não acabasse assim,
tão de repente.
E depois lavou
as mãos
e tingiu de rosa
a rosa.
E depois de olhar
o vazio por baixo do caule,
Deus criou as raízes
e à volta das raízes
criou a terra
para as prender.
E depois Deus multiplicou
as pétalas
e chamou-lhe cálice.
Então, Deus olhou
a sua obra
(pausa)
e amassando um punhado
de terra
fez a pedra
e debaixo da pedra
escondeu o insecto
que rasteja
em direcção à rosa.
E Deus,
sentindo que faltava ainda
alguma coisa à sua obra
criou o ar
a água
as estrelas
e o resto do universo.
o espinho.
E roçou nele a pele macia
e viu
que era bom.
E depois de picar todos
os dedos, um por um,
e de ver que não havia
mais nada,
Deus criou
o caule
e Deus criou
o verde.
E depois de tingir de verde
o polegar,
Deus criou
a pétala
e juntou a pétala
ao caule
para que o mundo
não acabasse assim,
tão de repente.
E depois lavou
as mãos
e tingiu de rosa
a rosa.
E depois de olhar
o vazio por baixo do caule,
Deus criou as raízes
e à volta das raízes
criou a terra
para as prender.
E depois Deus multiplicou
as pétalas
e chamou-lhe cálice.
Então, Deus olhou
a sua obra
(pausa)
e amassando um punhado
de terra
fez a pedra
e debaixo da pedra
escondeu o insecto
que rasteja
em direcção à rosa.
E Deus,
sentindo que faltava ainda
alguma coisa à sua obra
criou o ar
a água
as estrelas
e o resto do universo.
Ovo
A minha galinha
pôs um ovo.
Eu, fiz um poema.
Hoje é Domingo.
Vesti a bata azul das flores
e fui ter com ela.
O galinheiro cheira a águas velhas,
penas e excrementos.
Eu nunca soube apalpar
as galinhas para ver
se têm ovo.
"Não tomo banho
há sete dias", digo eu.
"Que alívio", diz ela.
Que alívio.
E cacarejamos.
pôs um ovo.
Eu, fiz um poema.
Hoje é Domingo.
Vesti a bata azul das flores
e fui ter com ela.
O galinheiro cheira a águas velhas,
penas e excrementos.
Eu nunca soube apalpar
as galinhas para ver
se têm ovo.
"Não tomo banho
há sete dias", digo eu.
"Que alívio", diz ela.
Que alívio.
E cacarejamos.
11.1.10
No comboio
Nenhum homem me amou mais
do que o homem que se sentou
ao meu lado no comboio.
Amou-me durante vinte e cinco minutos,
profundamente, sem olhos para mais nada.
Amou o meu perfil,
as minhas mãos a segurar o livro,
amou todas as vezes que olhei pela janela.
Amou-me de um sítio onde
não era capaz de falar-me do seu amor.
E quando se levantou, e me deixou para sempre,
ofereceu-me uma lâmina de madeira, limpa e macia,
dizendo que era para eu marcar
as páginas do livro: toda a riqueza do seu reino.
do que o homem que se sentou
ao meu lado no comboio.
Amou-me durante vinte e cinco minutos,
profundamente, sem olhos para mais nada.
Amou o meu perfil,
as minhas mãos a segurar o livro,
amou todas as vezes que olhei pela janela.
Amou-me de um sítio onde
não era capaz de falar-me do seu amor.
E quando se levantou, e me deixou para sempre,
ofereceu-me uma lâmina de madeira, limpa e macia,
dizendo que era para eu marcar
as páginas do livro: toda a riqueza do seu reino.
10.1.10
A morte do primo António
O primo António morreu atropelado
aos 23 anos. Contaram-me em pequena
que ele acabava de voltar para casa,
atravessou a estrada pela frente
do autocarro e o motorista não o viu.
Filho único, a mãe disse-me que ainda
há dias, ao adormecer, lhe sentiu as
mãos macias pousar na cara, e que ele fala
com ela fazendo cair os objectos da cozinha.
Com o primo António aprendi a nunca
atravessar a estrada à frente dum autocarro.
Só muitos anos mais tarde vim a saber
que não foi um autocarro. O primo
António morreu atropelado por um automóvel
quando voltava das aulas, noite escura
(depois de alguns anos meio perdido,
tinha voltado a estudar). O condutor
do carro, que ia bêbado, arrastou
o corpo estrada fora. Disse, mais tarde,
que pensava que era um gato.
Com o primo António aprendi a nunca
atravessar a estrada à frente dum autocarro.
aos 23 anos. Contaram-me em pequena
que ele acabava de voltar para casa,
atravessou a estrada pela frente
do autocarro e o motorista não o viu.
Filho único, a mãe disse-me que ainda
há dias, ao adormecer, lhe sentiu as
mãos macias pousar na cara, e que ele fala
com ela fazendo cair os objectos da cozinha.
Com o primo António aprendi a nunca
atravessar a estrada à frente dum autocarro.
Só muitos anos mais tarde vim a saber
que não foi um autocarro. O primo
António morreu atropelado por um automóvel
quando voltava das aulas, noite escura
(depois de alguns anos meio perdido,
tinha voltado a estudar). O condutor
do carro, que ia bêbado, arrastou
o corpo estrada fora. Disse, mais tarde,
que pensava que era um gato.
Com o primo António aprendi a nunca
atravessar a estrada à frente dum autocarro.
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