28.4.07

Quando tenho muita vontade

Quando tenho muita vontade
faço de conta que está a acontecer
tão perto que só pode ser comigo
arrasto a língua devagar e com ela
vou recolhendo as migalhas
que quase sabem a pão
que quase pesam um homem
que quase são de verdade

23.4.07

Sobre ir

Sobre ir de um ponto a outro não tenho nada a dizer. Já confundi uma estrada com um rio.

2.4.07

As carpideiras por Cesariny

O homem está na terra
um busto pousado na erva
incapaz de suster o voo.
Eu apareço pousado no balcão da pastelaria
inconveniente e com o significado de uma mosca.
As palavras cansam-me de erradas
ao lado e quase.
Nas manchas da luz incompleta do trabalho
- o que leva os dias - um pássaro tenta
a fuga contra as paredes. Ou os meus olhos erram.
Agora como; soma, menos.
Agora sono, pouco.
E na insatisfação dos horários, eu
- fácil como uma mosca -
sou
paciente de sobrevivência e de morte.

[encontrei este poema há duas semanas numa pilha de papéis pequenos, todos em branco menos este e tem andado, desde então, a voar pela sala ao sabor das correntes de ar, de forma que decidi postá-lo aqui. Lembro-me vagamente de o ter escrito e de ter sido rápido, mas por que raio lhe chamei "As carpideiras por Cesariny" é que não sei se percebo... foi um dia depois da morte dele: se calhar, tinha passado o dia a ler crónicas carpideiras nos jornais].