na minha rua todas as noites
há uma mulher que deixa
um seio
no parapeito da janela
nas casas em frente
mudas
tremem as cortinas
15.6.08
1.4.08
caranguejo
deus deu-me um caranguejo
para eu usar debaixo da pele
um caranguejo
que não pára quieto
quantas patas tenho?
pergunta-me o caranguejo
quando se aborrece
e para que eu não me engane
belisca-me
em vão tento mantê-lo
sossegado
o caranguejo anda
por onde lhe apetece
e faz força
com as pinças
uma de cada vez
toco-me
ali anda ele
desce-me pela barriga
e esconde-se lá embaixo
aqui está quentinho
diz-me
e faz-me cócegas
sabendo bem
que não posso
nunca me apresentas a ninguém
e eu
a disfarçar
daí por vezes
a minha inquietação
a culpa é do caranguejo
que deus me deu
para eu usar debaixo da pele
um caranguejo
que não pára quieto
quantas patas tenho?
pergunta-me o caranguejo
quando se aborrece
e para que eu não me engane
belisca-me
em vão tento mantê-lo
sossegado
o caranguejo anda
por onde lhe apetece
e faz força
com as pinças
uma de cada vez
toco-me
ali anda ele
desce-me pela barriga
e esconde-se lá embaixo
aqui está quentinho
diz-me
e faz-me cócegas
sabendo bem
que não posso
nunca me apresentas a ninguém
e eu
a disfarçar
daí por vezes
a minha inquietação
a culpa é do caranguejo
que deus me deu
12.1.08
Pasífae
Foi apanhada atrás da escola
num terreno coberto de ervas onde antes,
muito antes, houvera uma quinta.
Era minha amiga.
Nunca me contou nada.
Até ao fim do ano,
os rapazes e as raparigas
iam atrás dela, a chamar-lhe nomes.
Vaca
Puta
Vaca
Vaca
Grande vaca
Era minha amiga
mas eu agora tinha vergonha
e tinha vergonha
de ter vergonha.
Ela - calada.
Olhava para o lado.
Vaca
Puta
Grande vaca
Abres as pernas
a qualquer um,
a qualquer coisa.
Ela
(calada, devagar)
passava.
Eu acreditava que, ao cruzar a esquina,
com certeza ia chorar.
Vaca
Puta
Grande vaca
Um dia, no balneário,
as duas sozinhas, vi-a
despir-se, vi:
as coxas altas de madeira polida,
os seios, ainda pequenos
(maiores que os meus).
Os pelos entre as pernas
negros sobre o bronze da madeira.
Seios e pelos olhando em frente,
como se não se tivesse passado nada.
Sorriu e agradeceu-me
por ainda me sentar na carteira
ao lado dela
e por fazermos juntas
os exercícios de ginástica.
Vaca.
Grande vaca,
que teve
o touro mais bonito da manada.
num terreno coberto de ervas onde antes,
muito antes, houvera uma quinta.
Era minha amiga.
Nunca me contou nada.
Até ao fim do ano,
os rapazes e as raparigas
iam atrás dela, a chamar-lhe nomes.
Vaca
Puta
Vaca
Vaca
Grande vaca
Era minha amiga
mas eu agora tinha vergonha
e tinha vergonha
de ter vergonha.
Ela - calada.
Olhava para o lado.
Vaca
Puta
Grande vaca
Abres as pernas
a qualquer um,
a qualquer coisa.
Ela
(calada, devagar)
passava.
Eu acreditava que, ao cruzar a esquina,
com certeza ia chorar.
Vaca
Puta
Grande vaca
Um dia, no balneário,
as duas sozinhas, vi-a
despir-se, vi:
as coxas altas de madeira polida,
os seios, ainda pequenos
(maiores que os meus).
Os pelos entre as pernas
negros sobre o bronze da madeira.
Seios e pelos olhando em frente,
como se não se tivesse passado nada.
Sorriu e agradeceu-me
por ainda me sentar na carteira
ao lado dela
e por fazermos juntas
os exercícios de ginástica.
Vaca.
Grande vaca,
que teve
o touro mais bonito da manada.
11.1.08
o pescoço
é preciso avisá-los do perigo de me
tocarem no pescoço
neste instante
o mundo não está preparado
o mundo não está preparado
para certas coisas
tocarem no pescoço
neste instante
o mundo não está preparado
o mundo não está preparado
para certas coisas
14.6.07
Tacto fantasma
Às vezes, na casa reconstruída,
se me concentro numa tarefa ou num livro
e me esqueço onde estou – a luz apaga-se
até meio, mesmo a do sol –, voltam
as paredes antigas, o cheiro das madeiras e
o cheiro do pó, e nas minhas mãos recomeçam
as coisas que já não existem.
Ontem, passei meia-hora a abrir
e a fechar a porta do sótão:
maçaneta pequena,
de porcelana cinzenta,
meio saída do lugar -
nunca tinha reparado que era oval.
se me concentro numa tarefa ou num livro
e me esqueço onde estou – a luz apaga-se
até meio, mesmo a do sol –, voltam
as paredes antigas, o cheiro das madeiras e
o cheiro do pó, e nas minhas mãos recomeçam
as coisas que já não existem.
Ontem, passei meia-hora a abrir
e a fechar a porta do sótão:
maçaneta pequena,
de porcelana cinzenta,
meio saída do lugar -
nunca tinha reparado que era oval.
28.4.07
Quando tenho muita vontade
Quando tenho muita vontade
faço de conta que está a acontecer
tão perto que só pode ser comigo
arrasto a língua devagar e com ela
vou recolhendo as migalhas
que quase sabem a pão
que quase pesam um homem
que quase são de verdade
faço de conta que está a acontecer
tão perto que só pode ser comigo
arrasto a língua devagar e com ela
vou recolhendo as migalhas
que quase sabem a pão
que quase pesam um homem
que quase são de verdade
23.4.07
2.4.07
As carpideiras por Cesariny
O homem está na terra
um busto pousado na erva
incapaz de suster o voo.
Eu apareço pousado no balcão da pastelaria
inconveniente e com o significado de uma mosca.
As palavras cansam-me de erradas
ao lado e quase.
Nas manchas da luz incompleta do trabalho
- o que leva os dias - um pássaro tenta
a fuga contra as paredes. Ou os meus olhos erram.
Agora como; soma, menos.
um busto pousado na erva
incapaz de suster o voo.
Eu apareço pousado no balcão da pastelaria
inconveniente e com o significado de uma mosca.
As palavras cansam-me de erradas
ao lado e quase.
Nas manchas da luz incompleta do trabalho
- o que leva os dias - um pássaro tenta
a fuga contra as paredes. Ou os meus olhos erram.
Agora como; soma, menos.
Agora sono, pouco.
E na insatisfação dos horários, eu
- fácil como uma mosca -
sou
paciente de sobrevivência e de morte.
[encontrei este poema há duas semanas numa pilha de papéis pequenos, todos em branco menos este e tem andado, desde então, a voar pela sala ao sabor das correntes de ar, de forma que decidi postá-lo aqui. Lembro-me vagamente de o ter escrito e de ter sido rápido, mas por que raio lhe chamei "As carpideiras por Cesariny" é que não sei se percebo... foi um dia depois da morte dele: se calhar, tinha passado o dia a ler crónicas carpideiras nos jornais].
E na insatisfação dos horários, eu
- fácil como uma mosca -
sou
paciente de sobrevivência e de morte.
[encontrei este poema há duas semanas numa pilha de papéis pequenos, todos em branco menos este e tem andado, desde então, a voar pela sala ao sabor das correntes de ar, de forma que decidi postá-lo aqui. Lembro-me vagamente de o ter escrito e de ter sido rápido, mas por que raio lhe chamei "As carpideiras por Cesariny" é que não sei se percebo... foi um dia depois da morte dele: se calhar, tinha passado o dia a ler crónicas carpideiras nos jornais].
8.2.07
uma dor assim
É uma dor assim
um tanto difícil
escorregadia
contorcionista
alegre
uma dor, devo dizê-lo,
um pouco infantil,
não pára quieta
não me dá descanso
irritante
uma dor que se me agarra ao pescoço
que me acorda a meio da noite
risca os meus livros
entorna-me o copo
sai todos os dias
com as minhas roupas
e apaga-me
a luz
um tanto difícil
escorregadia
contorcionista
alegre
uma dor, devo dizê-lo,
um pouco infantil,
não pára quieta
não me dá descanso
irritante
uma dor que se me agarra ao pescoço
que me acorda a meio da noite
risca os meus livros
entorna-me o copo
sai todos os dias
com as minhas roupas
e apaga-me
a luz
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