21.11.11
17.10.11
Árvores livros filhos
livros
filhos
agora
que tudo já foi feito
agora
só me falta ter
um amante em Beirute
4.9.11
Uma laranja pode atrair-me ao teu quintal
Uma laranja pode
atrair-me ao teu quintal
mas também
o céu reflectido nas janelas,
ou até
o anel que brilha na tua mão
quando fechas a porta.
Uma flor, sim, uma flor
pode atrair-me
ao teu quintal
ou um insecto
- pássaro, flor -
na verdade, um verme
pode atrair-me
ao teu quintal.
Um buraco na terra, ervas daninhas
podem atrair-me
ao teu quintal.
Esse pedaço de pele entre
o teu ombro e o teu pescoço
pode atrair-me
ao teu quintal
de um modo geral, aliás,
o corpo
ou o som de um fruto a cair
pesado demais
no chão do teu quintal
- o balde da água
migalhas de pão
o cair da noite
a luz acesa
o cheiro a comida
podem atrair-me
ao teu quintal.
28.4.11
aqui me tens
A minha aldeia é igual a todas
as aldeias, isto é, nela há
um homem que um dia ao fim
de muitos anos há-de abrir
a porta e despir-se deixando
cair a roupa no cimento
da entrada e depois vai
caminhar até ao muro e chamar
a mulher que mora na casa
ao lado e naquele momento
arranca a erva do canteiro
das alfaces e dizer-lhe:
aqui me tens.
12.1.11
A toalha
truques
de magia
a mãe
põe a mesa
assim:
a mãe lança
a toalha
sobre a mesa
e durante um segundo
dois
a toalha fica
suspensa
(ainda)
como uma tenda de circo
e depois
devagarinho
como muito perto
do fim do mundo
a toalha
pousa.
A mãe sabe
tantas coisas
e também
onde não havia nada
agora
o copo, o prato,
a água, o pão.
5.1.11
A padeirinha
A padeirinha caíu
no fundo do alguidar
coitada da padeirinha
caíu de fazer tanta força
todo o dia a amassar.
A padeirinha caíu
na masseira com o pão
coitada da padeirinha
caíu de tanto tender
a massa na palma da mão.
A padeirinha caíu
no forno pelo calor
coitada da padeirinha
caíu de tanto cozer
sumiu-se de tanto suor
Agora não há padeirinha
não há forno nem pão mole
Era baixa e redondinha
cabia num alguidar
embrulhada num lençol.
28.12.10
A floresta
Terás de caminhar durante muitos dias.
No primeiro dia vais passar por uma mulher
muito velha que vai pedir-te pão.
Dá-lhe um pedaço de pão.
No segundo dia vais encontrar um cão
que vai pedir-te carne.
Dá-lhe um pedaço de carne.
No terceiro dia, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite pousado numa pedra.
Bebe o leite antes de entrares na floresta.
E se não beberes o leite nesse dia
nem no dia seguinte
nem todos os dias, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite pousado numa pedra.
Bebe o leite antes de entrares na floresta.
E se não beberes o leite nesse dia
nem no dia seguinte
nem todos os dias, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite (outro copo de leite)
pousado numa pedra (a mesma pedra)
Bebe o leite antes de entrares na floresta.
E se não beberes o leite nesse dia
no dia seguinte chegarás
ao princípio da floresta.
No primeiro dia vais passar por uma mulher
muito velha que vai pedir-te pão.
Dá-lhe um pedaço de pão.
No segundo dia vais encontrar um cão
que vai pedir-te carne.
Dá-lhe um pedaço de carne.
No terceiro dia, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite pousado numa pedra.
Bebe o leite antes de entrares na floresta.
E se não beberes o leite nesse dia
nem no dia seguinte
nem todos os dias, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite pousado numa pedra.
Bebe o leite antes de entrares na floresta.
E se não beberes o leite nesse dia
nem no dia seguinte
nem todos os dias, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite (outro copo de leite)
pousado numa pedra (a mesma pedra)
Bebe o leite antes de entrares na floresta.
E se não beberes o leite nesse dia
no dia seguinte chegarás
ao princípio da floresta.
22.11.10
o poema lê-se
O poema lê-se
de outra maneira
o poema
fechado na caixa
no meio da sala
é preciso tirá-lo
do caminho
o poema
embora por vezes
se ouçam vozes
assombração
o poema
passando-lhe a mão
no lombo afiado
ele dobra
e ao abrir a caixa
o ar que está fora
não se mistura
com o ar que está dentro
calado
à espera
de saltar-nos
ao pescoço
de outra maneira
o poema
fechado na caixa
no meio da sala
é preciso tirá-lo
do caminho
o poema
embora por vezes
se ouçam vozes
assombração
o poema
passando-lhe a mão
no lombo afiado
ele dobra
e ao abrir a caixa
o ar que está fora
não se mistura
com o ar que está dentro
calado
à espera
de saltar-nos
ao pescoço
ela disse rosas vermelhas (a partir de oscar wilde)
se eu lhe trouxesse rosas vermelhas
rosas vermelhas
ela disse
se em todo o meu jardim
ela disse
rosas vermelhas
rosas vermelhas
ela disse
que dançaria comigo
em todo o meu jardim
rosas vermelhas
ela disse
que dançaria comigo
em todo o meu jardim
rosas vermelhas
ela disse
ela dançaria comigo
rosas vermelhas
no meu jardim
ela disse
ela dançaria comigo
rosas vermelhas
no meu jardim
rosas vermelhas
ela disse
ela disse
se eu lhe trouxesse
rosas
rosas
rosas
rosas vermelhas
vermelhas
ela disse
rosas
vermelhas
ela disse
mas em todo o meu jardim
ela dançaria comigo
ela dançaria comigo
se ela disse
em todo o meu jardim
rosas vermelhas
rosas vermelhas
ela disse
ela disse que
dançaria com
rosas vermelhas
rosas vermelhas
mas se eu lhe trouxesse
rosas vermelhas
rosas vermelhas
mas se eu lhe trouxesse
rosas vermelhas
ela
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