12.1.08

Pasífae

Foi apanhada atrás da escola
num terreno coberto de ervas onde antes,
muito antes, houvera uma quinta.
Era minha amiga.
Nunca me contou nada.
Até ao fim do ano,
os rapazes e as raparigas
iam atrás dela, a chamar-lhe nomes.

Vaca
Puta
Vaca
Vaca
Grande vaca

Era minha amiga
mas eu agora tinha vergonha
e tinha vergonha
de ter vergonha.
Ela - calada.
Olhava para o lado.

Vaca
Puta
Grande vaca
Abres as pernas
a qualquer um,
a qualquer coisa.

Ela
(calada, devagar)
passava.
Eu acreditava que, ao cruzar a esquina,
com certeza ia chorar.

Vaca
Puta
Grande vaca

Um dia, no balneário,
as duas sozinhas, vi-a
despir-se, vi:
as coxas altas de madeira polida,
os seios, ainda pequenos
(maiores que os meus).
Os pelos entre as pernas
negros sobre o bronze da madeira.
Seios e pelos olhando em frente,
como se não se tivesse passado nada.
Sorriu e agradeceu-me
por ainda me sentar na carteira
ao lado dela
e por fazermos juntas
os exercícios de ginástica.

Vaca.
Grande vaca,
que teve
o touro mais bonito da manada.

11.1.08

o pescoço

é preciso avisá-los do perigo de me
tocarem no pescoço
neste instante
o mundo não está preparado
o mundo não está preparado
para certas coisas

14.6.07

Tacto fantasma

Às vezes, na casa reconstruída,
se me concentro numa tarefa ou num livro
e me esqueço onde estou – a luz apaga-se
até meio, mesmo a do sol –, voltam
as paredes antigas, o cheiro das madeiras e
o cheiro do pó, e nas minhas mãos recomeçam
as coisas que já não existem.
Ontem, passei meia-hora a abrir
e a fechar a porta do sótão:
maçaneta pequena,
de porcelana cinzenta,
meio saída do lugar -
nunca tinha reparado que era oval.

28.4.07

Quando tenho muita vontade

Quando tenho muita vontade
faço de conta que está a acontecer
tão perto que só pode ser comigo
arrasto a língua devagar e com ela
vou recolhendo as migalhas
que quase sabem a pão
que quase pesam um homem
que quase são de verdade

23.4.07

Sobre ir

Sobre ir de um ponto a outro não tenho nada a dizer. Já confundi uma estrada com um rio.

2.4.07

As carpideiras por Cesariny

O homem está na terra
um busto pousado na erva
incapaz de suster o voo.
Eu apareço pousado no balcão da pastelaria
inconveniente e com o significado de uma mosca.
As palavras cansam-me de erradas
ao lado e quase.
Nas manchas da luz incompleta do trabalho
- o que leva os dias - um pássaro tenta
a fuga contra as paredes. Ou os meus olhos erram.
Agora como; soma, menos.
Agora sono, pouco.
E na insatisfação dos horários, eu
- fácil como uma mosca -
sou
paciente de sobrevivência e de morte.

[encontrei este poema há duas semanas numa pilha de papéis pequenos, todos em branco menos este e tem andado, desde então, a voar pela sala ao sabor das correntes de ar, de forma que decidi postá-lo aqui. Lembro-me vagamente de o ter escrito e de ter sido rápido, mas por que raio lhe chamei "As carpideiras por Cesariny" é que não sei se percebo... foi um dia depois da morte dele: se calhar, tinha passado o dia a ler crónicas carpideiras nos jornais].

8.2.07

uma dor assim

É uma dor assim
um tanto difícil
escorregadia
contorcionista
alegre
uma dor, devo dizê-lo,
um pouco infantil,
não pára quieta
não me dá descanso
irritante
uma dor que se me agarra ao pescoço
que me acorda a meio da noite
risca os meus livros
entorna-me o copo
sai todos os dias
com as minhas roupas
e apaga-me
a luz

17.1.07

as vozes

Deus fala muito comigo
mas em línguas que não entendo
Fala-me baixinho
e às vezes, à noite,
digo-lhe "Deus, por favor, deixa-me dormir"
Ele cala-se por um instante
e depois recomeça
E eu digo-lhe "Deus, por favor, deixa-me;
que vens tu aqui fazer, falar comigo assim,
em línguas que não entendo -
acaso achas que preciso
de ouvir vozes;
de que me recordes todos os dias
como estou sozinha?"
E Deus fala mais e mais
quer-me às vezes parecer -
como se não acreditasse em mim.

19.12.06

as rosas

Procurar as rosas e cobrir a soleira de rosas. Se necessário, cortar as rosas. Renunciar por vezes às rosas. Cultivar e repreender as rosas. Comer algumas rosas. Não olhar a direito as rosas. Se chegar Janeiro, podar as rosas. Cobrir com pudor as raízes das rosas. Estender o braço entre os caules sem tocar as rosas. Deixar morrer devagar as rosas. Ver apodrecer as rosas. Querer as rosas, e querer ainda mais e de novo as rosas e querer muito falar das rosas. Ao passear com um amigo num dia de Inverno, sem dar por isso recordar com ele as rosas. Abrir uma excepção para as rosas.