Às vezes, na casa reconstruída,
se me concentro numa tarefa ou num livro
e me esqueço onde estou – a luz apaga-se
até meio, mesmo a do sol –, voltam
as paredes antigas, o cheiro das madeiras e
o cheiro do pó, e nas minhas mãos recomeçam
as coisas que já não existem.
Ontem, passei meia-hora a abrir
e a fechar a porta do sótão:
maçaneta pequena,
de porcelana cinzenta,
meio saída do lugar -
nunca tinha reparado que era oval.
14.6.07
28.4.07
Quando tenho muita vontade
Quando tenho muita vontade
faço de conta que está a acontecer
tão perto que só pode ser comigo
arrasto a língua devagar e com ela
vou recolhendo as migalhas
que quase sabem a pão
que quase pesam um homem
que quase são de verdade
faço de conta que está a acontecer
tão perto que só pode ser comigo
arrasto a língua devagar e com ela
vou recolhendo as migalhas
que quase sabem a pão
que quase pesam um homem
que quase são de verdade
23.4.07
2.4.07
As carpideiras por Cesariny
O homem está na terra
um busto pousado na erva
incapaz de suster o voo.
Eu apareço pousado no balcão da pastelaria
inconveniente e com o significado de uma mosca.
As palavras cansam-me de erradas
ao lado e quase.
Nas manchas da luz incompleta do trabalho
- o que leva os dias - um pássaro tenta
a fuga contra as paredes. Ou os meus olhos erram.
Agora como; soma, menos.
um busto pousado na erva
incapaz de suster o voo.
Eu apareço pousado no balcão da pastelaria
inconveniente e com o significado de uma mosca.
As palavras cansam-me de erradas
ao lado e quase.
Nas manchas da luz incompleta do trabalho
- o que leva os dias - um pássaro tenta
a fuga contra as paredes. Ou os meus olhos erram.
Agora como; soma, menos.
Agora sono, pouco.
E na insatisfação dos horários, eu
- fácil como uma mosca -
sou
paciente de sobrevivência e de morte.
[encontrei este poema há duas semanas numa pilha de papéis pequenos, todos em branco menos este e tem andado, desde então, a voar pela sala ao sabor das correntes de ar, de forma que decidi postá-lo aqui. Lembro-me vagamente de o ter escrito e de ter sido rápido, mas por que raio lhe chamei "As carpideiras por Cesariny" é que não sei se percebo... foi um dia depois da morte dele: se calhar, tinha passado o dia a ler crónicas carpideiras nos jornais].
E na insatisfação dos horários, eu
- fácil como uma mosca -
sou
paciente de sobrevivência e de morte.
[encontrei este poema há duas semanas numa pilha de papéis pequenos, todos em branco menos este e tem andado, desde então, a voar pela sala ao sabor das correntes de ar, de forma que decidi postá-lo aqui. Lembro-me vagamente de o ter escrito e de ter sido rápido, mas por que raio lhe chamei "As carpideiras por Cesariny" é que não sei se percebo... foi um dia depois da morte dele: se calhar, tinha passado o dia a ler crónicas carpideiras nos jornais].
8.2.07
uma dor assim
É uma dor assim
um tanto difícil
escorregadia
contorcionista
alegre
uma dor, devo dizê-lo,
um pouco infantil,
não pára quieta
não me dá descanso
irritante
uma dor que se me agarra ao pescoço
que me acorda a meio da noite
risca os meus livros
entorna-me o copo
sai todos os dias
com as minhas roupas
e apaga-me
a luz
um tanto difícil
escorregadia
contorcionista
alegre
uma dor, devo dizê-lo,
um pouco infantil,
não pára quieta
não me dá descanso
irritante
uma dor que se me agarra ao pescoço
que me acorda a meio da noite
risca os meus livros
entorna-me o copo
sai todos os dias
com as minhas roupas
e apaga-me
a luz
17.1.07
as vozes
Deus fala muito comigo
mas em línguas que não entendo
Fala-me baixinho
e às vezes, à noite,
digo-lhe "Deus, por favor, deixa-me dormir"
Ele cala-se por um instante
e depois recomeça
E eu digo-lhe "Deus, por favor, deixa-me;
que vens tu aqui fazer, falar comigo assim,
em línguas que não entendo -
acaso achas que preciso
de ouvir vozes;
de que me recordes todos os dias
como estou sozinha?"
E Deus fala mais e mais
quer-me às vezes parecer -
como se não acreditasse em mim.
mas em línguas que não entendo
Fala-me baixinho
e às vezes, à noite,
digo-lhe "Deus, por favor, deixa-me dormir"
Ele cala-se por um instante
e depois recomeça
E eu digo-lhe "Deus, por favor, deixa-me;
que vens tu aqui fazer, falar comigo assim,
em línguas que não entendo -
acaso achas que preciso
de ouvir vozes;
de que me recordes todos os dias
como estou sozinha?"
E Deus fala mais e mais
quer-me às vezes parecer -
como se não acreditasse em mim.
19.12.06
as rosas
Procurar as rosas e cobrir a soleira de rosas. Se necessário, cortar as rosas. Renunciar por vezes às rosas. Cultivar e repreender as rosas. Comer algumas rosas. Não olhar a direito as rosas. Se chegar Janeiro, podar as rosas. Cobrir com pudor as raízes das rosas. Estender o braço entre os caules sem tocar as rosas. Deixar morrer devagar as rosas. Ver apodrecer as rosas. Querer as rosas, e querer ainda mais e de novo as rosas e querer muito falar das rosas. Ao passear com um amigo num dia de Inverno, sem dar por isso recordar com ele as rosas. Abrir uma excepção para as rosas.
18.12.06
leite
Tenho leite no peito e
leite na boca e
nos olhos.
O mundo passa por trás de uma
película translúcida de
leite derramado.
Leite gordo.
Leite bom.
Onde tocam os meus dedos
aí fica leite
e quando me rio
espalha-se o leite
como uma nascente apertada
do espaço por entre os dentes
e tudo me sabe a leite
ao meu leite nas gengivas brancas.
Ouço-o:
leite no estômago e nas veias
leite quente entre as pernas
espuma de leite a sair da pele
e o cheiro o cheiro o cheiro
o cheiro este cheiro a leite.
leite na boca e
nos olhos.
O mundo passa por trás de uma
película translúcida de
leite derramado.
Leite gordo.
Leite bom.
Onde tocam os meus dedos
aí fica leite
e quando me rio
espalha-se o leite
como uma nascente apertada
do espaço por entre os dentes
e tudo me sabe a leite
ao meu leite nas gengivas brancas.
Ouço-o:
leite no estômago e nas veias
leite quente entre as pernas
espuma de leite a sair da pele
e o cheiro o cheiro o cheiro
o cheiro este cheiro a leite.
15.11.06
ao lado
Eu queria muito meter conversa
com o rapaz sentado na mesa
ao lado, porém
a única coisa que tenho
para lhe contar é que
hoje de manhã cosi
a bainha da minha saia.
Ele não deve saber como
a minha mão é exacta
no momento de coser
a bainha da saia
da sua flexibilidade de
aranha paciente e táctil
cada dedo um arco
de violino.
(escuto)
Não tenho nenhuma outra
coisa que valha a pena contar
mas falar disso ao rapaz
- não sei.
com o rapaz sentado na mesa
ao lado, porém
a única coisa que tenho
para lhe contar é que
hoje de manhã cosi
a bainha da minha saia.
Ele não deve saber como
a minha mão é exacta
no momento de coser
a bainha da saia
da sua flexibilidade de
aranha paciente e táctil
cada dedo um arco
de violino.
(escuto)
Não tenho nenhuma outra
coisa que valha a pena contar
mas falar disso ao rapaz
- não sei.
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