15.11.06

ao lado

Eu queria muito meter conversa
com o rapaz sentado na mesa
ao lado, porém
a única coisa que tenho
para lhe contar é que
hoje de manhã cosi
a bainha da minha saia.

Ele não deve saber como
a minha mão é exacta
no momento de coser
a bainha da saia
da sua flexibilidade de
aranha paciente e táctil
cada dedo um arco
de violino.
(escuto)

Não tenho nenhuma outra
coisa que valha a pena contar
mas falar disso ao rapaz
- não sei.

Meu

Este braço não é meu.
Este riso, este ombro,
este leito,
este passo não é meu.
Nem o ar quando respiro.
Não é meu o rio nem
meu é o testemunho
nem o cordel
em torno do pulso
que não é meu.
Falo dum sonho que não é meu.
De uma forma precisa de cortar o pão.
Nada disso é meu.

13.10.06

intervalo

I

porque é aí que te quero
do outro lado
deste grão de areia


II

ah, mas eu já aprendi
a desaparecer
quando fecham os olhos
para se rirem
escondo-me atrás
dos cortinados
ninguém me vê


III

por aqui
subo
aonde eu estou
por aqui
vem o vento
e lá vou eu
por aqui
abaixo


IV

qualquer canto em vão
de escada me chega
para fazer o ninho
(olha, está ali
um passarinho)


V

o que tens na boca
não é teu


VI

fugiste dos meus sonhos
não queres aparecer
agora não têm graça
nenhuma
sou só eu sentada
à espera


VII

bom era se viesses
à hora em que o meu
pescoço está mais tenro

8.10.06

rapunzel

fui à janela e
soltei as minhas tranças

a noite inteira a soltar
as tranças à janela
enquanto a casa ardia

alguns treparam-me
pelas pernas acima
porém
ninguém quis as minhas tranças
e eu tinha-as lavado
estavam perfumadas
as minhas tranças
que ninguém quis

cheirava a queimado lá dentro
mas à janela estava fresco
constipei-me
sinto febre
nas pernas
não é mais nada
só esta febre nas pernas
a casa queimada
e as tranças
como as hastes de um veado
no Outono

16.9.06

em viagem

E quando rodei o corpo em
direcção ao sul eu soube
que a partir desse dia já não
queria ser aquele que chega
e parte, mas sim
o que fica
e vê partidas, chegadas e
mãos que lhe acenam à porta
de passagem.
É esse que sente o sorriso
recolher devagar como um
cão que se deita para
a sesta no silêncio
final da tarde.

8.9.06

De noite

Chega de noite - como o homem que um dia
na infância vi no meu quarto e ainda hoje
não sei quem era.
Lembro-me de um fato escuro
lembro-me de uma sombra uma mancha uma nódoa
ao lado da minha cama
coisa grande que se movia devagar
inclinada sobre a mesa de cabeceira.
Depois virou-se e afastou-se até à porta -
eu fingia dormir, o mundo inteiro
fazia um som de fera negra
a respirar a farejar-me o corpo.
Dele não guardei mais que o vulto
escuro e curvo uma vírgula gigante
no meu quarto o som seco e retido
dos passos no tapete e do roçar da roupa
como uma boca que tenta prender a voz.
Nunca soube quem era
o que fazia ali o homem.
Oh mistérios da infância!
E hoje, mais uma vez, chega de noite.
É outra coisa.

17.8.06

Expiração

Um ano inteiro a tentar
que não chegasse Setembro.

Mas as coisas cansaram-se do Verão.
Expiram. Abrandam. Olham o chão.

E tu que sempre me
lembraste uma flor
recolhes-te em sombra e silêncio.

10.5.06

a mesa

pusemos a mesa na mesa
e pusemos a mesa
no chão pusemos a mesa
na areia da praia e
no sofá e pusemos a mesa
na cama e na erva
que cresce no quintal
das traseiras e pusemos
a mesa entre duas pedras
redondas e pusemos a mesa
à sombra de uma
nogueira e pusemos a mesa
onde quer que coubesse
a toalha branca da nossa
primeira manhã