17.10.11

4.9.11

Uma laranja pode atrair-me ao teu quintal



Uma laranja pode
atrair-me ao teu quintal
mas também
o céu reflectido nas janelas,
ou até
o anel que brilha na tua mão
quando fechas a porta.

Uma flor, sim, uma flor
pode atrair-me
ao teu quintal
ou um insecto
- pássaro, flor -
na verdade, um verme
pode atrair-me
ao teu quintal.

Um buraco na terra, ervas daninhas
podem atrair-me
ao teu quintal.

Esse pedaço de pele entre
o teu ombro e o teu pescoço
pode atrair-me
ao teu quintal
de um modo geral, aliás,
o corpo
ou o som de um fruto a cair
pesado demais
no chão do teu quintal

- o balde da água
migalhas de pão
o cair da noite
a luz acesa
o cheiro a comida
podem atrair-me
ao teu quintal.

28.4.11

aqui me tens

A minha aldeia é igual a todas

as aldeias, isto é, nela há

um homem que um dia ao fim

de muitos anos há-de abrir

a porta e despir-se deixando

cair a roupa no cimento

da entrada e depois vai

caminhar até ao muro e chamar

a mulher que mora na casa

ao lado e naquele momento

arranca a erva do canteiro

das alfaces e dizer-lhe:

aqui me tens.

12.1.11

A toalha


A mãe sabe
truques
de magia

a mãe
põe a mesa

assim:

a mãe lança
a toalha
sobre a mesa

e durante um segundo
dois
a toalha fica
suspensa

(ainda)

como uma tenda de circo
e depois
devagarinho
como muito perto
do fim do mundo
a toalha

pousa.

A mãe sabe
tantas coisas
e também
onde não havia nada
agora
o copo, o prato,
a água, o pão.

5.1.11

A padeirinha

A padeirinha caíu
no fundo do alguidar
coitada da padeirinha
caíu de fazer tanta força
todo o dia a amassar.

A padeirinha caíu
na masseira com o pão
coitada da padeirinha
caíu de tanto tender
a massa na palma da mão.

A padeirinha caíu
no forno pelo calor
coitada da padeirinha
caíu de tanto cozer
sumiu-se de tanto suor

Agora não há padeirinha
não há forno nem pão mole
Era baixa e redondinha
cabia num alguidar
embrulhada num lençol.

28.12.10

A floresta

Terás de caminhar durante muitos dias.

No primeiro dia vais passar por uma mulher
muito velha que vai pedir-te pão.
Dá-lhe um pedaço de pão.

No segundo dia vais encontrar um cão
que vai pedir-te carne.
Dá-lhe um pedaço de carne.

No terceiro dia, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite pousado numa pedra.
Bebe o leite antes de entrares na floresta.

E se não beberes o leite nesse dia
nem no dia seguinte
nem todos os dias, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite pousado numa pedra.
Bebe o leite antes de entrares na floresta.

E se não beberes o leite nesse dia
nem no dia seguinte
nem todos os dias, quando chegares
ao princípio da floresta vais encontrar
um copo de leite (outro copo de leite)
pousado numa pedra (a mesma pedra)
Bebe o leite antes de entrares na floresta.

E se não beberes o leite nesse dia
no dia seguinte chegarás
ao princípio da floresta.

22.11.10

o poema lê-se

O poema lê-se
de outra maneira
o poema

fechado na caixa
no meio da sala

é preciso tirá-lo
do caminho
o poema

embora por vezes
se ouçam vozes
assombração
o poema

passando-lhe a mão
no lombo afiado
ele dobra

e ao abrir a caixa
o ar que está fora
não se mistura
com o ar que está dentro

calado

à espera
de saltar-nos
ao pescoço

ela disse rosas vermelhas (a partir de oscar wilde)



ela disse que dançaria comigo
se eu lhe trouxesse rosas vermelha
s

rosas vermelhas
ela disse

se em todo o meu jardim
ela disse
rosas vermelhas

rosas vermelhas
ela disse

que dançaria comigo
em todo o meu jardim

rosas vermelhas
ela disse

ela dançaria comigo
rosas vermelhas

no meu jardim
rosas vermelhas
ela disse
ela disse
se eu lhe trouxesse

rosas
rosas
rosas vermelhas

ela disse
rosas

vermelhas
ela disse

mas em todo o meu jardim
ela dançaria comigo

se ela disse
em todo o meu jardim

rosas vermelhas
ela disse

ela disse que
dançaria com

rosas vermelhas
rosas vermelhas

mas se eu lhe trouxesse
rosas vermelhas
ela

4.11.10

Lisboa no Inverno

Lisboa no Inverno começa em Agosto
Quando os olhos nos doem
Na página do livro que se fez cinzenta
Sem que déssemos por isso

Lisboa no Inverno começa atrás dos prédios
Quando o sol desaparece mais cedo
E desaparece e desaparece e desaparece
Até ao fim da rua
E fica uma sombra morna por baixo das árvores
Uma sombra larga e luminosa
Tão grande como o sol que se pôs.

Esticamo-nos e reviramo-nos no sofá
Ou debruçamo-nos sobre a mesa
Para evitar um acção mais brusca que interrompa a leitura
Como levantarmo-nos para ligar os candeeiros e acender a casa
Só mais um bocadinho, só mais um bocadinho
Como no sono bom, no duche quente
Que eu agora não quero acordar
Não quero este folclore das estações às cotoveladas no mundo
Agora eu, agora eu
A tirar-me deste torpor

Se ainda agora havia dia
Quase até à meia-noite
Um dia de braços abertos
Como um peixe gigante

Acesa, a casa é uma janela amarela quase invisível
Na noite de Agosto em que o Inverno chega à cidade
E se deixa ficar quieto para ninguém perceber
E o sol que se pôs atrás dos prédios se demora ainda
Aberto
Sobre o rio